Romper barreiras e quebrar paradigmas parecem ser as especialidades dessas mulheres. Presenças notáveis em atividades majoritariamente masculinas, elas não se preocupam com estereótipos ou preconceitos. Donas de talentos próprios, alcançaram sucesso nas profissões que escolheram, consertando veículos, transportando dezenas ou apenas um passageiro, em um trânsito cada dia mais conturbado.
Quando disse para a mãe que queria ser mecânica, Suellen Gomes Leal, de 24 anos, ouviu um sonoro "tem certeza?" como resposta. A estranheza foi natural, uma vez que a jovem não tem nenhum parente dedicado à atividade. No entanto, o interesse por veículos se manifestou desde cedo e ela passou a contar com apoio da mãe para a qualificação, ao reafirmar que estava disposta a seguir carreira.
"Minha mãe se ofereceu para pagar um curso para mim e eu escolhi mecânica automotiva", lembra Suellen. Após a capacitação de cinco meses no Senai, a jovem conquistou um emprego em uma oficina de alinhamento; depois, entrou em uma concessionária e atualmente trabalha na loja da Mitsubishi. Estudar apenas reforçou o interesse de Suellen por veículos.
Em um ambiente estritamente masculino, ela se dedica à parte de alinhamento e balanceamento, mas ajuda os colegas em qualquer outro reparo. Sem falsa modéstia, a mecânica garante ter conhecimento sobre todas as etapas do trabalho, embora reconheça que sempre há o que aprender.
"Já desmontei até motor, então, acho que já fiz de tudo um pouquinho", diz. O cuidado com os veículos no trabalho se reflete no próprio carro, um Gol 2002. "Qualquer barulhinho já quero saber o que é", conta. Para Suellen, a necessidade de força física e o preconceito não são empecilhos.
"Quando comecei não foi muito fácil, mas consegui a confiança dos clientes; eles têm curiosidade de saber o motivo pelo qual escolhi a profissão. Se você gostar realmente do que faz não tem obstáculo", afirma.

Na boleia

Cirlei Medeiros Watanabe, de 55, optou pela carreira de motorista após voltar do Japão, onde viveu com o marido por sete anos. Do outro lado do mundo ela transportava alunos e professores em uma van, e, à noite, levava brasileiros para trabalhar nas fábricas. Isso tudo a bordo de veículos automáticos e de mão inglesa.
"Quando voltei ao Brasil, pensei: vou fazer disso uma profissão", conta. Há um ano, Cirlei foi contratada como motorista pela empresa de transporte urbano Grande Londrina. Durante esse período pilotou os dois modelos menores da frota, mas na última sexta-feira, enquanto conversava com a reportagem da FOLHA, ela se preparava para o teste que poderia promovê-la a motorista do veículo maior, que tem nada menos que 12,5 metros de comprimento. "Não sei ainda a diferença, tenho que encarar", pondera a profissional.
Cirlei diz que o preconceito não faz parte do seu dia a dia. Ela acredita que a fase de maior estranheza dos usuários diante de mulheres na boleia já tenha passado.
"Uns três anos atrás ainda levavam susto, hoje, poucas pessoas estranham", relata. A profissão exige paciência para lidar com imprevistos, como a quebra de um ônibus, e isso a motorista garante que tem de sobra. Mesmo com o horário atípico (ela fecha o turno à meia-noite e cinquenta) e o estresse diário no trânsito, Cirlei nem pensa em abandonar a profissão.
"Eu gosto do que faço, gosto de interagir, de dar 'bom dia' para as pessoas que entram no ônibus; o que mais atrapalha é o trânsito, tem que ter cuidado", orienta. E agora, ela se prepara para encarar esse trânsito conturbado guiando o gigante de 12,5 metros, já que foi aprovada no teste da última sexta.

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