Motoristas trocam casa por carro
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de outubro de 2002
Da Redação 
''Hoje, o carro é a extensão da nossa casa''. Esta foi a constatação da recente pesquisa realizada pela psicóloga Neuza Corassa, fundadora do Centro de Psicologia Especializado em Medos (CPEM), de Curitiba. Segundo Neuza, a maioria das pessoas tem com o carro a mesma relação de segurança e conforto do lar. Criam no automóvel ambientes similares aos da casa como a sala, quando oferece carona, escuta música, namora no banco de trás, etc; banheiro, ao usar o espelho para se pentear ou passar batom; escritório, ao ler jornais, fazer ligações e anotações de negócios; sala de jantar, ao fazerem pelo menos uma das refeições ou lanche no carro
Durante um ano entre observações e entrevistas, Neuza chegou não só a essa conclusão, mas também a de que o estudo comprova que esta relação distorcida com o veículo pode ser a causa de muitos conflitos no trânsito. As pessoas levam para os carros os referenciais e valores de espaço privado e, portanto agem de forma extremamente defensiva no espaço público (rua e avenidas) e se sentem pessoalmente agredidos com o menor problema. ''É o instinto de sobrevivência do homem falando mais alto exatamente por ver no carro a extensão do porto-seguro, que é o lar'', explica Neuza, que completa ''Diante de uma situação de perigo, o cérebro dá um comando para lutar ou fugir. Esta química que estimula a preservação da espécie se chama Noraadrenalina''.
Para Neuza, as recentes ondas de violência no trânsito que tomam as grandes cidades podem encontrar justificativas na pesquisa. Segundo ela, existem três tipos de motoristas, descritos em detalhes no seu livro mais recente ''Vença o medo de dirigir''. São eles: os cautelosos, os donos do mundo e os mascarados. Nos dois últimos perfis se encontram as pessoas de reações agressivas no trânsito e também as capazes de reagir com violência quando sentem que seu carro e sua vida foram ameaçados no trânsito. ''As pessoas ficam tão à vontade no trânsito, que acabam tendo um comportamento inadequado, o que favorece as brigas e os desentendimentos'', afirma Neuza.
Há 11 anos estudando o comportamento das pessoas no trânsito para identificar os perfis dos motoristas, a psicóloga diz que essa mudança de comportamento se tornou mais frequente a medida que as pessoas são obrigadas a passar mais tempo em seus carros. Mas afirma que essa não é a principal causa. É um fator agravante assim como o perfil do motorista. ''Há casos de pessoas que não moram em grandes cidades e não passam tanto tempo no trânsito, mas cultivam o sentimento de adoração por seus carros e, portanto também têm seus referenciais distorcidos'', explica.


