Os dois brilham nas pistas como se fossem uma coisa só. Bólidos que viraram o sonho de consumo da nova classe média combinado à euforia do sertanejo universitário, o ritmo dançante que dobrou o Brasil, estão praticamente se fundindo nos clubes, nas ruas, nas estradas e nas rádios. As canções das duplas do momento pisam fundo para traduzir o ambiente cada vez mais urbano da cultura popular. O culto ao carro ganha cada vez mais hinos com sotaque interiorano.
Após menções esporádicas a cada temporada, o sonho brasileiro que viaja sobre quatro rodas se tornou recorrente nas composições que estão nos ouvidos e na boca de motoristas e passageiros. E, em sonho, carro é sempre grande, potente, veloz. E, o mais importante, turbina a vida amorosa.
Quem nunca ouviu estes versos retumbando na caixa de som de um possante? ''Vem ni mim Dodge Ram/ Focker duzentos e oitenta/ A mulherada louca...''. O sucesso do goiano Israel Novaes, apadrinhado com a voz da sensação Gusttavo Lima, abriu caminho para outros hits automobilísticos, que continuam saindo com cada vez mais vigor das linhas de produção.
Em todos eles, os brasileiros são apresentados como sujeitos apaixonados por carro e pelo poder que ele representa, ratificando nos tempos do politicamente correto, a força do automóvel como ícone máximo do consumo e da prosperidade.
Talvez, a parceria mais bem-sucedida entre a música sertaneja e a indústria automobilística, porém, seja mesmo ''Camaro Amarelo'', da dupla sul-mato-grossense Munhoz e Mariano, com os famosos versos que consagram a redenção. ''E agora você diz: 'Vem cá que eu te quero'. Quando eu passo de Camaro Amarelo''. A Chevrolet, divisão da General Motors, comemora o mega hit, que colocou o modelo Camaro e a cor amarela em destaque quando o assunto é ''carro que faz milagre''.
A letra explora o desejo de ascensão social do público. ''Quando eu passava por você/ Na minha CG/ Você nem me olhava/ Aí veio a herança do meu veio/ E resolveu meus problemas, minha situação/ E do dia pra noite, fiquei rico/ Tô na grife/ Tô bonito/ Tô andando igual patrão''.
Os versos explicam o apelo que o coupé esportivo provoca e o retorno que ele trás além do ponto de vista logístico. ''E agora eu fiquei doce, doce, doce /doce igual caramelo/ tô tirando onda/de Camaro amarelo''.

Resposta do fusquinha

Até os modelos menos glamourosos têm espaço na onda automobilística do sertanejo universitário. Em resposta ao sucesso da dupla capixaba, que fez o número dos coupés esportivos norte-americanos se multiplicar nas avenidas e nos estacionamentos dos shoppings, a dupla Marcos e Mancini, de Abatiá (Norte Pioneiro), compôs um hino de protesto contra a ditadura do Camaro no jogo da conquista. ''Um dia na balada, ele largou ela sozinha/ Me pediu uma carona, levei ela de fusquinha/ Ela me deu moral, eu já fui logo dando um trato/ Fiz ela esquecer o playboyzinho do Camaro'', diz um trecho da faixa Fusquinha do Papai, revelando que ainda há esperança para os pobres mortais.
O cantor capixaba Gabriel Gava também recolocou no inconsciente coletivo um utilitário já quase esquecido, o Fiat Fiorino, que nem nos anos 1980, quando foi lançado, fazia sucesso nas chegadas às festas. Nada muito lisonjeiro para o modelo velhinho, que ainda assim sugere uma surpreendente eficácia. ''De Land Rover é fácil/ É mole/ É lindo/ Quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino'', diz o refrão pegajoso, fazendo comparação do Fiat com a marca inglesa dos SUVs de luxo.
A cada sucesso com o tema, a necessidade de ter um carro para se dar bem é vendida como irrefutável, como assegura os contundentes versos de ''Vem Ni Mim Dodge Ram'', de Israel Novaes. ''Já não faz muito tempo/ Que eu andava a pé/ Não pegava nem gripe/ Muito menos mulher/ Só pegava poeira/ Não olhavam pra mim/ Um dia, eu decidi/ Eu vou sair daqui/ Quem não tem dinheiro é primo primeiro de um cachorro...''.

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