Montadoras se negam a reduzir lucros
PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de novembro de 1998
Agência Estado 
A resistência das montadoras em abrir mão das suas margens de lucro, em meio a outros impasses, foi um dos principais motivos que levaram ao adiamento da discussão de uma proposta para renovação da frota de veículos.
Depois de três reuniões técnicas, entre fabricantes de veículos, indústria de autopeças, concessionários, sindicatos de trabalhadores e o próprio governo de São Paulo, o grupo não chegou a um consenso, conforme era previsto para a última sexta-feiura. O governador Mário Covas (PSDB), que comandou a reunião, avaliou que faltou clareza numérica.
Pediu, então, que cada parte faça as contas do quanto pode ceder, destacou que o objetivo maior do progrma é a manutenção do emprego e marcou nova reunião para a próxima quinta-feira.
A falta de clareza numérica à qual Covas se refere, é a ausência de uma fórmula para reduzir em cerca de 30% o preço do carro zero-km para o consumidor que possui veículo com mais de 15 anos de uso. Oficialmente, os únicos que apresentaram um número foram os concessionários, que se comprometeram a reduzir a sua margem de lucro de 14% para 7%.
O governo estadual não divulgou quanto pode reduzir do ICMS, mas assumiu o compromisso de diminuir o imposto. Segundo o presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos (Fenabrave), que representa os concessionários, Hugo Maia, o setor sugere que a alíquota do ICMS seja reduzida dos atuais 12% para 8%.
Para o governo federal, a idéia é pedir a diminuição do IPI do carro popular para 0,3% para modelos a gasolina e 0,1% para veículos a álcool.
Segundo o secretário do Emprego e das Relações do Trabalho de São Paulo, José Luiz Ricca, o governo estuda ainda a isenção do IPVA para os carros envolvidos no programa. A proposta é isentar esses veículos do imposto durante três anos para os carros a álcool e durante dois para os movidos a gasolina.
O presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes (Sindipeças), Paulo Butori, não acredita que o governo fará resistência à idéia de reduzir impostos porque a medida não abrangeria todos os veículos, mas apenas os envolvidos no programa de renovação da frota.
A indústria de autopeças aceita ceder margem de lucro desde que as montadoras estimem em quanto o mercado poderia crescer. O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC calcula que o programa pode aumentar as vendas em 400 mil veículos por ano. Hoje são vendidos 1,5 milhão por ano.
Os fabricantes de veículos fecharam a questão, se recusando a ceder parte do lucro. Não vamos reduzir margem, frisou.
ReciclagemSegundo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), José Carlos Pinheiro Neto, o setor já fará sua parte ao arcar com os custos da reciclagem dos veículos que tiverem que sair de circulação - 5,5 milhões.
Segundo ele, a Anfavea estima que a reciclagem de cada carro custa entre US$ 300 e US$ 600. As siderúrgicas pagariam algo em torno de US$ 60 por tonelada reciclada.
A reunião de hoje também foi marcada pela continuidade das divergências entre as centrais sindicais. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Paulo Pereira da Silva, que representa a Força Sindical, insiste que a proposta apresentada pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, da CUT, para a renovação da frota pode resultar em desemprego nas oficinas. Eu tabalho para construir acordos, não para destruí-los, rebateu o presidente do Sindicato do ABC, Luiz Marinho.
Para Covas, a questão do emprego é que deve prevalecer. Estamos fazendo isso em primeiro lugar por causa do emprego. Em segundo lugar, para a ativação da economia. Se isso for interesse generalizado - e o é -, é natural que cada um procure dar a contribuição que for possível, limitada ao indispensável, destacou o governador.


