Medo de dirigir é fobia comum
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de abril de 2010
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Curitiba Na última sexta-feira de março, a dona de casa Aparecida Palmas, de 41 anos, dirigiu seu carro no Centro de Curitiba. Não estava sozinha: foi acompanhada por sua psicóloga. Ainda assim, dirigir no trânsito agitado da região central da cidade, ainda mais em um dia de chuva, era algo impensável para Aparecida até algumas semanas antes.
Sofro com esse problema faz tempo. Procurei ajuda porque só agora soube que existe gente que ajuda. As pessoas falam que é uma bobagem, mas para quem tem esse medo é muito difícil. Só de pensar em dirigir me dava um desespero, explica a dona de casa.
Aparecida fez as primeiras tentativas para tirar a carteira de habilitação apenas aos 28 anos, porque sentia medo. Na segunda tentativa, eu travei. Não lembro como cheguei em casa, relata. O medo persistiu. Ela só tirou a carteira há cinco anos. E agora procurou ajuda. Está no meio do tratamento. Adquiriu mais confiança no dia em que dirigiu no meio da chuva curitibana. Me senti bem segura, garante.
O medo de dirigir é uma fobia mais comum do que muitos pensam e atinge milhões de pessoas. A engenheira mecânica Mônica Pinto da Silva Soares, de 35 anos, decidiu encarar seu medo no início deste ano. Tirei a carteira há cinco anos. Meu pai havia sofrido um acidente no sítio e eu não tive como socorrê-lo porque não sabia dirigir. Percebi a necessidade de aprender. Mas sempre tive medo, afirma a engenheira.
A situação-limite que forçou Mônica a procurar ajuda profissional foi a compra do seu primeiro carro, no segundo semestre do ano passado. De setembro a dezembro, só dirigi o carro umas cinco vezes, e sempre acompanhada. Quando não tinha ninguém para ir comigo, não saía com o carro. Eu tinha vontade de dirigir, mas não me sentia capaz. Sozinha, não ia conseguir vencer esse medo. Tinha medo de errar e de prejudicar as pessoas: bater o carro, atropelar alguém, explica.
Com o tratamento, a evolução foi gradativa. O segredo foi entender que eu levava a questão para o lado negativo sem que nada tivesse acontecido. Nunca tinha batido o carro, nunca tinha acontecido nenhuma situação traumática, diz Mônica, hoje totalmente curada.
A psicóloga Salete Coelho Martins criou em 2006 a clínica Psicotran. Embora a clínica atenda pessoas que sofrem de outros tipos de fobia, o foco está voltado para quem tem medo de dirigir, como indica o nome.
Meu pai é dono de autoescola. Trabalhei lá e percebi que muita gente voltava para fazer reciclagem. Fiz uma pesquisa com esses clientes e vi que eles retornavam porque se sentiam inseguros. Era o medo de dirigir. Resolvi fazer o meu trabalho de psicóloga dentro do carro, descreve.
Foi então que surgiu a ideia de criar uma clínica especializada. Na autoescola, percebi algumas limitações. O instrutor tem no seu lado, no espaço do passageiro, o duplo pedal, aceleração e embreagem. Além disso, o carro de autoescola é sempre identificado, com aqueles adesivos. Senti que isso atrapalhava. Um dia, atendi uma cliente no carro dela. Foi muito mais produtivo. Ela conseguiu enfrentar o medo. No carro da autoescola, ela sentia que, quando fazia uma coisa importante, como uma rampa, ela não era a responsável. E, por ser um carro de autoescola, identificado, ela se sentia um ET no trânsito, como se os outros motoristas estivessem sendo caridosos com ela, abrindo passagem. Por isso, na clínica, fazemos tudo no carro do cliente, afirma Salete.


