Os russos querem montar uma fábrica de veículos na América do Sul. O assunto foi discutido numa reunião do conselho da Lada na semana passada e a decisão final será tomada no próximo encontro, no final do ano. A principal dúvida é a escolha entre Brasil e Argentina.
Mas a Argentina já saiu na frente: o governo ofereceu um acordo envolvendo a exportação de carne em troca da garantia do investimento de US$ 30 milhões, que devem ser gastos na fábrica para produzir o modelo Niva, a partir do ano 2000.
O projeto de mais uma fábrica de veículos, depois que tantas montadoras já decidiram vir para a região, parece exagero. O fato de a idéia vir de um povo mergulhado numa crise sem precedentes soa ainda mais estranha. Mas é justamente na crise do seu país que se sustenta a decisão da Lada de aumentar as vendas no exterior.
A crise fez o preço do Niva no mercado russo cair da média de US$ 6 mil a US$ 7 mil para US$ 3 mil a US$ 4 mil. Com esses valores, a empresa percebeu que poderia exportar grande quantidade de veículos para o Brasil ao custo de US$ 2 mil. A empresa fez um contato com a assessoria do Ministério da Fazenda no Brasil para sondar a possibilidade de trazer um lote de 10 mil unidades do Niva, que seriam vendidas a US$ 7 mil em oito ou 12 meses.
‘‘Mas os assessores do ministro (José) Botafogo (Gonçalves, da Indústria, Comércio e Turismo) nos informaram que o governo criaria barreiras à entrada dessa quantidade de veículos’’, explicou o diretor da Lada do Brasil, Alexandre Antokine. Há oito anos no Brasil, este executivo russo foi diretor de exportações da montadora na Rússia. Hoje, ele trabalha não apenas nos contatos para instalar a fábrica na América do Sul como para reativar as vendas da marca no Brasil.
Os brasileiros vão se acostumar a ver novamente os carros russos que circulavam pelas ruas no início da abertura do mercado. Depois de interromper a importação entre 1995 e 96, a Lada quer marcar presença no mercado brasileiro novamente. Trouxe, a título de teste, 25 unidades do Niva entre julho e agosto e conseguiu vender 24 rapidamente.
Antokine disse que vai trazer mais dois lotes de 50 veículos cada até dezembro. Para o próximo ano, os projetos são mais ousados: a idéia é vender duas mil unidades do veículo, que tem como público certo os apaixonados por jipes de características rústicas.
O Niva que voltou a ser importado custa R$ 18,8 mil. Segundo Antokine, o veículo poderia ser vendido por R$ 16,5 mil se a marca pudesse compartilhar do sistema de cota, por meio do qual as empresas recolhem metade do Imposto de Importação, que hoje é de 49%. Como a Rússia não é membro da Organização Mundial do Comércio (OMC), não pode participar do sistema de cotas.
O Niva que pode ser produzido no Brasil será um modelo novo, que a Lada lançará na Rússia a partir de janeiro. Trata-se de um modelo de quatro portas, ainda inédito. A fábrica terá capacidade inicial de 3 mil unidades por ano. No segundo ano, segundo Antokine, o volume subiria para 5 mil. E, posteriormente, a 20 mil unidades.
O governo argentino está oferecendo incentivos fiscais para que a empresa se instale na Zona Franca de Mar del Plata. Ainda não houve nenhum contato com o governo brasileiro. Antokine explicou que a empresa não pretende participar do regime automotivo, que vai acabar no final de 99.
O Brasil leva vantagem, porém, na capacidade de fornecer componentes. Antokine contou que os russos já visitaram três fornecedores e perceberam que a qualidade no Brasil é superior à da Argentina. Segundo ele, há boas chances de nacionalizar grande parte do veículo a ser produzido na América do Sul. ‘‘Deveremos importar a transmissão e o motor, mas podemos comprar de fornecedores locais conjuntos como a suspensão, carroceria e tapeçaria’’, destacou.
O novo Niva ganhou potência e desempenho. O modelo antigo tinha motor 1.6. O atual é o 1.7 com injeção eletrônica. Antokine passou os dois anos em que as importações foram suspensas cuidando exclusivamente dos serviços de manutenção da frota de veículos Lada no Brasil, que soma perto de 30 mil unidades.
Hoje, a marca conta com 28 concessionários e 46 pontos de serviço autorizado. Segundo Antokine, a empresa fornece peças diretamente ao consumidor nas áreas em que não há assistência, como municípios do Mato Grosso.

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