Kombi: remodelada e bicombustível em 2006
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sábado, 30 de abril de 2005
Agência Estado 
Aos 52 anos, a Kombi se prepara para uma pequena plástica externa e um transplante interno. A perua vai receber, em meados do próximo ano, motor bicombustível, tecnologia inicialmente introduzida em veículos mais luxuosos. Os retoques externos serão quase imperceptíveis, mas o veículo cinquentão, líder absoluto em vendas no seu segmento, vai poder rodar com álcool ou gasolina.
A Kombi será um dos últimos modelos da Volkswagen a receber motor flexível. Até o fim deste ano, 80% dos automóveis da montadora sairão de linha com essa tecnologia. Mesmo no fim da fila, a perua que desafia qualquer lei de mercado pela sua longevidade em tempos de produtos globais vai dar ao motorista a opção de decidir o combustível que abastecerá o tanque.
A introdução do motor flexível nesse veículo considerado um dinossauro na indústria automobilística mundial deve garantir significativa sobrevida à espécie. As mudanças na Kombi são confirmadas num momento em que dois automóveis com tecnologia avançada, o Mercedes-Benz Classe A e o Audi A3, têm a morte decretada no mercado nacional.
O Classe A deixará de ser fabricado no próximo semestre, com seis anos de mercado. O A3 sai de linha em 2006, aos sete anos. Nenhum deles consegue bater a marca de mil unidades mensais de vendas da Kombi. ''A realidade brasileira não tem muito espaço para esses produtos'', diz Silvia Magalhães, da consultoria Roland Berger. ''São modelos caros para seus atributos.''
Para a Kombi, há espera de pelo menos dez dias em algumas versões, diz o diretor de Vendas e Marketing da Volkswagen, Paulo Sérgio Kakinoff. Em março, um pedido extra de 300 unidades feita por um frotista elevou as vendas médias para 1,3 mil veículos, mas ainda assim o abastecimento nas lojas não foi normalizado.
A maior parte de compradores da Kombi são pessoas físicas, afirma Kakinoff. Para os profissionais que vendem caldo de cana e pastel na feira, fazem transporte escolar ou lotação, os atributos da perua com cara de pão de fôrma são imbatíveis. ''O que garante o sucesso da Kombi é o preço'', confirma o diretor da consultoria Megadealer, José Caporal.
No ano passado, foram vendidas 12,4 mil unidades da Kombi, quatro vezes mais que o Fiat Ducato, o segundo colocado no segmento. A perua de cinco décadas - que começou a ser vendida no País em 1953, inicialmente importada, e quatro anos depois entrou em produção - tem preço hoje entre R$ 32 mil e R$ 34 mil. A concorrente é oferecida a R$ 68 mil. Nenhuma das demais concorrentes - Kia Besta, Renault Master e Mercedes-Benz Sprinter - têm preços abaixo de R$ 60 mil.
''A compra da Kombi é racional, independe do design ou da tecnologia'', diz Kakinoff. ''Não há nada no mercado com custo-benefício igual, pois nenhum outro veículo tem capacidade para transportar uma tonelada de carga, ou tem a durabilidade e o baixo custo de manutenção da Kombi.''
O executivo lembra que, em meados dos anos 90, a Volks lançou a Kombi Carat, uma versão ''mais sofisticada'', com bancos de tecido, desembaçador traseiro, aquecimento interno e vidro verde. ''Foi um fiasco. Não vendemos nada e o veículo teve de sair de linha.''
Mas se engana quem acredita que a Kombi é só veículo de trabalho. Há dez anos, o comerciante Sérgio Eduardo Fontana comprou uma Kombi fabricada em 1961. O veículo tinha pertencido a um único dono, um rapaz que a usava para transportar a mãe paralítica. ''A filha da senhora insistiu para eu ver a perua e, quando vi, me apaixonei.'' Ele gastou mais na restauração do que no valor pedido pela proprietária.
Hoje, a Kombi faz parte da coleção de Fontana, mas ele costuma viajar nela para várias partes do País. Brasília (DF), Porto Alegre (RS) e Chapecó (SC) foram os destinos mais recentes. Em uma viagem a Curitiba (PR), há quatro anos, Fontana perdeu uma calota em um dos vários buracos da BR 116, próximo a Registro (SP). Na volta, uma semana depois, ele avistou a calota encostada no pilar de uma ponte. ''Reconheci ao passar pelo local.''
Hoje com 45 anos, Fontana diz que a Kombi faz parte de sua vida. ''Meu pai teve, era nela que eu saía para tomar chope com os amigos em minha juventude.'' Interessados já ofereceram o valor de um carro novo pela Kombi, mas ''ela não tem preço'', avisa.


