Apucarana José Salomão Filho, nascido em Avaré, interior de São Paulo, o primogênito de uma família de pequenos fazendeiros, tem uma das mais antigas carteiras de motorista do Brasil. Aprendeu a dirigir no século passado, acompanhando a trajetória de um país que dependia do café para delinear seu futuro, e continua dirigindo no atual, sem dar sinal de quem deseja estacionar. A bordo de seu Chevete 1985, que comprou há dois anos, se acostumou a sair do prédio onde mora, no centro de Apucarana, e dirigir até o despachante que tocou de 1956 a 1971 hoje arrendado.
José Salomão tirou sua primeira habilitação em 1926, com 18 anos incompletos. Naquele tempo, com o País enfrentando sua primeira grande crise econômica por conta da superprodução de café, conquistar esse direito não dependia nada de suas habilidade com o carro e sim do grau de afinidade que sua família desfrutava com as autoridades locais. Assim, retrocendo quase 80 anos, José Salomão, hoje aposentado e viúvo, era o legítimo dono da Carteira de Condutor de Automóvel número 132, que conquistou com o apoio do prefeito de Avaré e que guarda até hoje como uma relíquia, uma lembrança dos ''bons tempos''. ''Quem era amigo dele (prefeito), tinha carteira garantida. Nem precisava saber dirigir e ter 18 anos. Era só ser amigo do prefeito e tava tudo resolvido'', conta o aposentado. Em capa dura, o documento acolhe a assinatura do prefeito, do secretário-geral da prefeitura e duas fotos do motorista, uma de frente e outra de perfil.
Quase passando dos 96 anos se aproxima mais da marca centenária em fevereiro do ano que vem o aposentado vive à margem de qualquer comentário sobre a inclusão de seu nome em programas de televisão ou livro de recordes, tipo Guiness. A vaidade, definitivamente, não faz parte de sua vida. Ele prefere a modéstia e o anonimato. ''Não sei se sou o mais velho motorista do Brasil, porque tem muita gente dirigindo por aí, mas da cidade acredito que sim'', afirmou.
Ainda assim, José Salomão pode ser um recodista sem ter conhecimento disso, embora essas coisas passem longe de sua cabeça. De acordo com o Guiness Book, conhecido como o livro dos recordes, Layne Hall, nascido em 24 de dezembro de 1884, em Nova York, é considerado o motorista mais idoso do mundo. Hall morreu em 1990, então com 105 anos. Seu José não sabe se chegará tão longe, mas no que depender de sua vitalidade é magro, tem um corpo esguio e não come bobagens nada pode ser considerado impossível. ''Nunca parei de dirigir e pretendo continuar assim até o fim'', garantiu.
José Salomão passou muito tempo em Avaré, ajudando os pais a trabalhar na lavoura. Fez faculdade de ciências contábeis. Deixou o campo e mudou para São Paulo, onde montou um escritório e começou atuar como contador. Foi essa bagagem que ele carregou para Apucarana na década de 50. Mas como a paixão por carros batia forte, decidiu abrir um escritório despachante, o qual acredita ser o primeiro da cidade. Seu comportamento no trânsito é considerado exemplar, tanto que lhe rendeu uma homenagem do Detran de Apucarana. Na sala de casa, sentado no sofá, exibe com orgulho a placa de reconhecimento. Foi o representante dos mototoristas da cidade na Semana Nacional de Trânsito de 2005. E o que ele achou da homenagem? ''Muito bonita, é uma coisa que deixa a gente feliz''.
Tudo isso tem uma explicação. Seu José jura que nunca bateu o carro nesses 80 anos. Multa também nunca levou. Sempre procurou respeitar as leis de trânsito, desde o tempo em que elas praticamente nem existiam. ''Hoje é tudo uma afobação. É gente dirigindo com pressa, sem respeitar o outro... Lembro do tempo que tudo era mais tranquilo. Acidente era coisa rara, juntava gente quando acontecia um'', recordou.
O motorista mais velho de Apucarana, pioneiro do setor de despachantes, aconselha os mais novos com a propriedade de quem conhece do assunto. Primeira dica: velocidade baixa, principalmente na cidade. ''Sempre andei devagar. Tem gente que buzina atrás de mim. É só passar na minha frente e ir embora'', protestou. Outra recomendação, mais direcionada a motoristas inexperientes: ''Bebida é a pior coisa no volante. Nunca bebi na minha vida. O risco é muito grande''.

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