A cara de valente deste jipe Dodge WC52, fabricado em 1942, parece não mostrar toda a história de luta escondida durante seus 64 anos de existência. Apenas uma placa de ferro, incrustada no pára-choques, lembra, de fato, a luta por qual passou.
Descoberto em um barracão abandonado de uma fazenda no Paraguai, o WC52 (a sigla é uma abreviação de ''Weapons Carrier'', que em inglês significa ''carregador de armas''), saiu dos escombros com a ajuda de Frutuoso Nogueira dos Santos, dono de uma serraria em Toledo e ex-expedicionário brasileiro do Canal de Suez, no Oriente Médio.
Na verdade, Frutuoso ''ganhou'' a relíquia ao comprar uma área de mata no Paraguai, onde tinha a pretensão de retirar a madeira. ''O jipe estava entre o mato e uma árvore, completamente abandonado, em um barracão semidestruído em meio à mata'', conta Lúcio Flávio dos Santos, primo de Frutuoso e atual dono do veículo.
Frutuoso tirou o jipe do local e o transportou até Toledo, isso em 1974, onde iniciou a sua restauração. Após um conserto ali, um apertão aqui e um ajuste acolá, Frutuoso deixou o jipe renovado, pronto para outra. ''Mesmo com o abandono, a lataria ficou conservada e não foi preciso grandes reformas. Na época, apenas o motor, a gasolina, estava condenado. Meu primo então decidiu trocá-lo por um a diesel, que está nele até hoje'', relembra Santos.
Com a reforma, o WC52 - também conhecido no Brasil pelo apelido de ''Pata Choca'' - virou a principal ferramenta de trabalho e de transporte de Frutuoso. ''Por causa da serraria, o jipe se transformou em um caminhão de carga e era muito útil no trabalho'', afirma Lúcio. Porém, o jipe também era utilizado em viagens com a família. ''Ele tinha uma capota e jogava um colchão atrás, aonde iam as crianças. Uma vez, chegou ir até Camboriú desse jeito'', conta o primo.
Prisão - O WC52 também já viu o dia nascer quadrado. Por ser militar e não trazer documentação, foi apreendido pela Polícia Federal no Brasil. ''Não houve jeito. O carro foi recolhido e passou anos no pátio da polícia. Obter a documentação e a legalização foi um processo demorado e difícil'', relembra Lúcio.
Durante os dois anos em que ficou preso, o jipe recebeu toda a atenção necessária. ''Foi coberto para não estragar e sempre que possível meu primo ia funcionar e cuidar dele'', conta.
Lúcio diz que viveu toda a agonia do primo - já falecido - e guarda na memória a história desse jipe, desde a sua ''descoberta''. ''É uma história marcante. Meu primo tinha uma ligação muito forte com esse veículo, pois andou em muitos jipes iguais a esse no tempo em que serviu em Suez. E eu também acabei pegando um amor por ele, pois acompanhei toda a sua trajetória'', explica Lúcio. Diante de tamanha paixão, em 1997, Frutuoso decidiu repassar a relíquia para Lúcio, que o trouxe para Londrina.
De lá para cá, o WC52 virou um mito e uma atração nas mãos de Lúcio. O jipe ganhou mais detalhes militares e sempre é ''convocado'' para desfiles militares, como em 7 de Setembro. ''Os militares e ex-expedicionários são saudosistas. E quando andam no jipe, revivem as histórias da guerra, as amizades, o tempo no quartel'', diz Lúcio.
Assim como as histórias, são muitas as fotos de militares e ex-combatentes com o WC52 de Lúcio. Os detalhes do jipe, encantam os mais saudosistas. Há espaço para fuzis, pás, picaretas e ferramentas utilizadas na época da guerra. Na frente, um potente guincho, ainda é capaz de tirar o WC52 de qualquer atolamento, esta uma ''raridade'' em sua história, já que tem tração 4x4 e reduzida que o tornam um verdadeiro topa-tudo sobre a terra. ''Sob o capô, ainda existe um farol antiaéreo, que emite um facho de luz pequeno. Era a forma utilizada antigamente para que o carro não fosse visto por aviões ou helicópteros inimigos durante a noite'', explica.
Diante dos olhares curiosos por onde passa, Lúcio deixa claro: o WC52 não está à venda. ''Tenho um sentimento e um vínculo muito grande com esse jipe. Não tem como pensar em vender. Só mesmo em caso extremo'', diz.

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