O ano de 96 marcou um período de realismo no mercado automobilístico nacional, depois da euforia de 94 e da desilusão de 95, causada pela intervenção pesada do governo no setor. Mais precavidas, as marcas tomaram atitudes contidas e só deram passos muito cuidadosos. Nada que se assemelhasse aos rompantes otimistas de 94, que acabaram gerando os grandes estoques de importados modelo 95 - que persistiram encalhados em algumas revendas até agosto deste ano.
As rédeas curtas do governo seguiram em 96. Mas o sinal de mudanças foi dado logo em janeiro, com o novo regime automotivo. Com ele, houve a redução da alíquota de importação para as empresas que exportam peças e veículos. Pelo sistema, cada US$ 2 exportados equivalem a US$ 1 importado sem imposto. Esta política foi criada para incentivar a instalação de novas marcas no País e não ajudava as empresas estrangeiras.
O imposto de importação para estrangeiros continuou como em 95, com alíquota de 70%. De março a junho, o mercado recebeu outros empurrões que foram liberando gradativamente os prazos de financiamento e consórcios, que estavam limitados a seis meses desde 95. Com isso, os prazos estão livres e os lances dos consórcios também voltaram a ser permitidos.
Para as marcas estrangeiras, a maior mudança ocorreu em outubro, com a implantação das cotas de importação. O sistema determina uma quantidade de veículos de cada marca que podem ser importados com taxa de 35%. Apesar disso, poucas marcas reduziram seus preços.
O maior reflexo do controle do Governo, principalmente no primeiro semestre do ano, foi a redução significativa das vendas de veículos importados. Enquanto ano passado foram comercializados cerca de 420 mil veículos estrangeiros, este ano fecha com apenas 210 mil unidades vendidas, uma redução de 50%, mesmo com a participação dos carros do Mercosul.
As marcas estrangeiras responderam pela venda de 65 mil veículos, uma queda de 45,8% em relação aos cerca de 120 mil registrados em 95. Já as montadoras nacionais foram responsáveis, este ano, pela importação de 145 mil veículos, contra aproximadamente 300 mil unidades trazidas de outros países no ano passado. Uma redução de 51,6%.
Esta queda refletiu-se nas vendas totais de veículos, que se mantiveram no mesmo patamar de 95: 1,73 milhão de unidades. Só não houve queda devido ao aumento das vendas de modelos nacionais, que passaram de 1,3 milhão, em 95, para 1,52 milhão em 96, o que representa um crescimento de 17%.
Juntamente com o aumento das vendas de veículos nacionais, a produção das montadoras instaladas no país também subiu, batendo o recorde histórico do ano passado. Das linhas de montagem saíram 1,8 milhão de veículos, contra 1,65 milhão em 95, o que representa um aumento de 9,1%. Para este aumento, contribuiu o surgimento de veículos novos, como o Fiat Palio, o Ford Fiesta e o Chevrolet Vectra, que deram ânimo ao mercado.
O aumento das exportações também ajudou a escoar a produção nacional, mesmo que de forma modesta. O ano de 1996 termina com as montadoras embarcando 280 mil veículos para outros mercados. Este número é 6,5% maior do que as 263 mil unidades exportadas em 95.
Com a tendência de manutenção da atual política automotiva, depois de várias mudanças nos últimos anos, as marcas acreditam que os números continuarão a crescer em 97. As expectativas da Anfavea - associação que reúne os fabricantes nacionais - são otimistas. A produção em 97 deve atingir a marca de 1,99 milhão de veículos, um crescimento de 11,8% em relação a 96. Já as vendas, somados nacionais e importados, deve chegar a 1,86 milhão, um aumento de 6,9%. Os veículos nacionais responderiam por 1,62 milhão das vendas e os importados por 240 mil, segundo a Anfavea.
Em meio a tantas novidades nos segmentos de compactos e médio-grandes, os modelos médios ficaram abandonados em 96. Além de não contarem com novidades, os veículos do filão ficaram defasados. Num cenário pouco atraente para os compradores, só mesmo o Escort se salvou, mesmo com uma versão de transição para o novo modelo lançado agora em novembro. O carro vendeu 57,9 mil unidades e foi o campeão do segmento. Se o Escort 96 foi só um modelo tapa-buraco, os outros carros estão moribundos. O que ainda tem fôlego, apesar de velho e ameaçado de sair de linha, é o Kadett, com 41,9 mil unidades em 96.
Depois do Kadett, aparecem outros pré-aposentados. O Logus vendeu 17,2 mil unidades e, como é um projeto remanescente da Autolatina, passou o ano só na espreita do anúncio do fim de sua produção, que ainda não aconteceu. O mesmo problema também atinge o Pointer, carro que nunca emplacou no mercado e vendeu 5 mil unidades em 96. Outro morto vivo é o velho Tipo, que foi substituído na Europa em 95 e acabou sendo despachado para o Brasil. O modelo da Fiat vendeu 14,8 mil unidades em 96. A redenção do segmento só começa mesmo em 97, com o novo Escort e a chegada do Polo Classic, da Volkswagen.

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