Impunidade estimula álcool e direção
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sábado, 11 de agosto de 2001
Ed Carlos Rocha<BR>De Curitiba 
Numa passada rápida por restaurantes, bares e danceterias da cidade é fácil ver dezenas de pessoas ingerindo bebida alcólica. O fato até poderia ser considerado normal se muitas das mãos que levam copos com cerveja, vodca, uísque etc. à boca não fossem as mesmas que momentos mais tarde estarão no volante de carros. O problema é mais comum à noite e atinge principalmente os jovens. Mas por que continuar bebendo e dirigindo se o ato coloca em risco a vida de várias pessoas e ainda pode render multas pesadas?
A maioria dessas pessoas aponta claramente como motivo para continuar se arriscando a falta de fiscalização por parte da polícia. ''Faço isso há dois anos e nunca vi uma blitz sequer na madrugada. Amigos meus também falam a mesma coisa. Se houvesse uma fiscalização mais rígida, a gente não se arriscaria tanto'', conta o estudante Rafael, que prefere dar apenas o primeiro nome.
O estudante L.R.L, de 23 anos, é outro que não sente medo da fiscalização. Para ele, que diz sair pelo menos quatro vezes na semana para beber, não há muita preocupação porque a Justiça, segundo diz, '' é fraca''. ''Eles falham na fiscalização em vários aspectos no Brasil. Não só em álcool, como também em drogas.''
Para o também estudante M.A., 20 anos, a despreocupação com a fiscalização leva até ao desconhecimento das implicações em caso de flagra. ''Nem sei o que pode acontecer ser for flagrado bêbado. Mas também não há muita preocupação. A gente nunca vê a blitz'', afirma.
Há quem diga que no começo da implantação do novo Código de Trânsito, em janeiro de 98, a fiscalização era mais rígida. Os números sobre notificações feitas pelo BPTran (Batalhão de Polícia de Trânsito) de certa forma até mostram isso. De janeiro a junho de 1998, foram feitas 362 notificações por embriaguez. De janeiro a junho de 2001, apesar do aumento de motoristas nas ruas neste período, as notificações caíram para 299. Metade delas, no entanto, são feitas quando há acidente.
Para alguns motoristas, porém, a fiscalização foi sempre a mesma. ''O que havia no começo era mais propaganda. A fiscalização é sempre igual. Eu mesmo não me lembro de ver blitz nas ruas.'' conta o empresário Rubens Antônio Cancela da Cruz, 35 anos.
Outro fator que estimula as pessoas a beberem, segundo a psicóloga Adriane Picchetto Machado, é o famoso ''comigo não vai acontecer nada''. Segundo ela, as pessoas que bebem criam o ''mito da invunerabilidade''. ''Acham que acidentes só atingem os outros.''
Nesse grupo enquadra-se principalmente quem costuma beber pouco, algo em torno de quatro, cinco cervejas, o que, além de ser suficiente para uma multa, já deixa a pessoa, segundo os médicos, sem as suas melhores condições para dirigir.
Quem nunca se envolveu em acidente também tende a ignorar o problema. O empresário Fernando Dallagranna, 39 anos, por exemplo, diz que, apesar de beber ''uns quatro chopes'' quando sai, fica em totais condições de dirigir. ''Tanto que nunca me envolvi em acidente'', conta ele.
Vale lembrar que as estatísticas mostram que dirigir depois de beber está entre as ações mais criminosas do trânsito brasileiro. A cada ano, cerca de 50% das mortes em acidentes de trânsito são provocadas pela ingestão de álcool.


