Ícone de uma grande marca
Aos 13 anos de idade, o pequeno Carlos tinha uma rotina puxada engraxando sapatos no centro de Londrina. O ponto em que ele ficava era perto de um posto da Polícia Rodoviária Federal que, naquele tempo, em 1957, tinha como meio de transporte imponentes motocicletas de uma marca que conquistava cada vez mais espaço mundo afora: Harley-Davidson. Se cada pessoa tem um destino na vida, o dele já parecia traçado. "Não fui eu que escolhi a Harley, foi ela que me chamou", declara hoje, 57 anos depois.
Naquela época, o hoje setentão começou a lavar as motos da polícia. Pouco tempo depois, tornou-se mecânico. O velocímetro da paixão foi então acelerando. Não demorou muito para que ele comprasse a primeira HD. O casamento entre os dois estava consumado, sem chances para separação.
Hoje, Carlos Inácio é relações públicas da marca. Mas não perca tempo procurando-o por esse nome. Mencione apenas "Índio", o homem que foi até a fábrica nos Estados Unidos e, como se fora o Papa João Paulo II chegando a um país, beijou o solo do local.
"O porteiro veio até mim e perguntou se eu era o Índio. Confirmei e quis saber o porquê dele ter adivinhado. Então o homem respondeu que trabalhava lá havia 27 anos e jamais tinha visto alguém demonstrar tamanho carinho pela marca. Como tinha ouvido parte da minha história com a Harley, deduziu quem eu era", recorda.
Durante eventos mundo afora, o presidente da marca costuma chamar Índio para subir ao palco. E a boina, acessório que raramente sai da cabeça do ex-engraxate, também foi presente do mandatário. "Durante uma visita à fábrica me colocaram um crachá de visitante no peito. Quando o presidente chegou para me encontrar disse: tirem isso dele, pois aqui ele está em casa", relembra.
Em cima de uma Harley, Índio já percorreu a América. Argentina, Chile, Estados Unidos, Uruguai. "Onde tiver estrada eu chego", resume. Além da viagem física, sobre a motocicleta ele se transporta para outras épocas. "Assim como vou para caminhos do futuro, transito pelo passado também. Relembro de amigos que já se foram, lugares em que passei, momentos inesquecíveis vividos. É um divã sobre rodas", define.
Em 2011, ele e a mulher foram até a Amazônia. Percorreram os 4,1 mil quilômetros quase sem cansaço algum. "Em cima de uma Harley você não tem pressa. Quer mais é que a viagem demore ainda mais", avalia.
Mas por que será que as HD despertam tanta admiração entre as pessoas, a ponto de ser a segunda palavra mais tatuada no mundo, atrás apenas da palavra mãe? Índio responde sem dificuldade. "Passados 111 anos da fundação, ela é um estilo de vida. Comprar uma é como entrar em um filme em andamento e participar da história. Os modelos são iguais dentro da loja, mas já saem diferentes. Cada um personaliza, tornando-a única", reflete. "A história não é mais da marca, é de cada um que possui uma Harley", complementa.
Durante a entrevista, dois irmãos se aproximam do estande de Índio. Ela, com 10 anos e ele, com 3. Sobem em um dos modelos em exposição no Brasil Motorcycle Show, realizado em Curitiba. Índio não resiste e vai conversar com as crianças. Conta histórias, sorri. Não demora a se emocionar.
"Tão jovens e já demonstrando interesse em conhecer algo que hoje se mistura à minha própria vida. Tenho o compromisso de não decepcioná-los. De mostrar nosso legado, de despertar essa paixão. Eles são o futuro da Harley. São o futuro da minha história também", analisa, com os olhos rasos dágua. (M.M.)





