HISTÓRIA - Um mecânico com seis décadas de experiência
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sábado, 02 de julho de 2011
Wilhan Santin <br> Reportagem Local 
Em 1942, ainda criança, Mário Bonafini, 71 anos, chegou a Londrina vindo de Capivari no interior paulista. A família era mais uma das centenas que buscaria vida melhor no Eldorado Norte-Paranaense onde o ouro era verde, proveniente dos cafezais.
Neto de um pequeno cafeicultor e filho de um funcionário da pioneira Cerâmica Mortari, aos 11 anos viu-se diante da pergunta do pai: ''quer continuar estudando ou quer trabalhar''?
Sem pensar muito, respondeu que queria ser mecânico. Poucos dias depois, nos idos de 1950 estava empregado na Oficina Irmãos Mazzer, já mexendo com motores de pés de bode.
Oito anos depois, convidado por José Cortelassi, foi trabalhar na famigerada Transparaná, campeã de vendas de Jeeps, os 4X4 desenvolvidos para a guerra que se tornaram carros civis perfeitos para encarar o barro vermelho da região.
''O asfalto não existia por aqui. Só o Jeep era capaz de proporcionar deslocamento nos dias de chuva. Havia fila de espera de compradores. Cheguei a presenciar brigas de clientes, que disputavam para ver quem ia levar o único disponível no estoque'', recorda Bonafini.
Mais tarde, conforme as estradas foram melhorando, as vendas dos Jeeps caíram e os carros da Chrysler passaram a dominar o portfólio da Transparaná. Sobretudo os Dodges, com motor V8 e design interessante, faziam sucesso. Bonafini fora promovido a gerente, voltando a estudar no período noturno para concluir o antigo ginasial. ''Eu me cobrava muito. Voltei para a sala de aula, pois precisava de conhecimento'', destaca.
Com 15 anos de casa, Bonafini trocou a Transparaná pela Maracaju, concessionária Ford, onde a bola da vez era o Galaxie Landau. ''Naquele tempo, o preço da gasolina não era absurdo como hoje'', destaca o pioneiro. ''Logo vieram também a Belina e o Corcel, cuja versão de quatro portas passou a ser a preferida dos taxistas'', completa.
Paralelamente ao trabalho nas concessionárias, Bonafini se destacou na televisão, trabalhando como apresentador e interpretando o personagem Dom Camilo - um italiano -, nas décadas de 1960 e 1970, no programa de Ricardo Otello Queirolo, o Palhaço Picolino. ''Trabalhei quatro anos na TV Coroados e quatro anos na Bandeirantes. Também viajamos muito pelo Paraná apresentando o Show do Picolino. Bons tempos.'' Bonafini também cantou em coral e foi ator de teatro. Mas nunca abandonou os carros.
Aos 25 anos de Maracaju, mais uma vez a convite do amigo Cortelassi, mudou de casa, agora atuando no Centro Técnico Automotivo (CTA), em Londrina, onde é chefe de oficina. Já não põe a mão na graxa, mas tem que estar atento a cada detalhe. ''Em todos esses meus anos de profissão, considero que a maior evolução dos motores foi o advento da injeção eletrônica. Antes, o carburador dava muito problema de entupimento. Mas para mexer com injeção eletrônica tem que ter conhecimento e as ferramentas adequadas'', destaca.
Sobre a profissão, Bonafini é só elogios, mas lamenta uma certa falta de interesse dos jovens pelo ofício. ''Os rapazes não querem sujar as mãos de graxa. Também é preciso estar sempre buscando conhecimento para ser um bom profissional. Hoje, mecânico tem que estudar. Tudo evolui muito rápido. Veja que os carros já têm direção elétrica'', aconselha o homem com seis décadas de experiência, casado há 48 com Maria, pai de duas filhas e avô de uma moça. Um cara feliz.


