Rodas raiadas em madeira, um pedal para acelerar, um para engatar a primeira marcha e outro para frear. No lugar do triângulo de sianlização um lampião, todos os comandos manuais e a partida feita na manivela com a parte elétrica em seis volts.
Fica até difícil imaginar que uma ''máquina'' como a descrita acima possa circular ainda hoje. É por isso que os Saldanha se orgulham de desfilar seu Ford T 1915 pelas ruas de Maringá (Noroeste) e em encontros e feiras de apaixonados por antigomobilismo.
Comprado em 1930 pela família no interior paulista, o automóvel faz parte da geração que iniciou a produção de carros e mostra que é possível envelhecer bem. ''Meu pai comprou de um fazendeiro que havia trazido o carro dos Estados Unidos e foi esse automóvel que trouxe a gente para Maringá, acompanhando uma comitiva. Posso até dizer que ele viu a cidade crescer e minha família também'', diz José Ruiz Saldanha. Vale atentar para o fato de que a linha Ford T só começou a ser produzida no Brasil em 1917, o que aumenta o valor histórico do popular Bigode dos maringaenses.
Antes de chegar à cidade, no entanto, o veículo foi confiscado pelo Exército brasileiro durante a Revolução de 1930, quando ganhou o tom verde militar em sua lataria, mantido até hoje, mesmo após passar por algumas pinturas. Depois de cinco anos, o carro voltou à família. ''Meu pai sempre nos contava sobre a época da Revolução, o que tornou a história do carro ainda mais interessante'', observa Saldanha, hoje com 73 anos.
O lavrador comenta que chegou menino a terras desconhecidas desbravadas pela Companhia de Melhoramentos Norte do Paraná (CMNP), e seu pai, um espanhol, de acordo com ele, um tanto ''linha dura'', costumava dizer que ali estava o futuro dele e de toda a sua família. Por muitas vezes o automóvel encalhava no meio da estrada ainda de terra. ''Várias vezes tiveram que arranjar animais que puxassem o carro do atoleiro. Eu era criança, mas não me esqueço disso'', conta.
Um carro com tanto tempo só poderia estar cheio de histórias. Outra que Saldanha gosta de relatar é a do dia em que seu pai resolveu guardar o carro e ordenou aos filhos que não mexessem nele até que fossem autorizados. Segundo o lavrador, o período durou aproximadamente 15 anos e só aumentou a curiosidade e a paixão pelo automóvel.
Apesar de ter passado muita vontade de dirigir, Saldanha acredita que o tempo guardado fez bem ao Bigode. Ele atribui a esse fato grande responsabilidade sobre a atual situação do veículo, que atualmente ainda faz uma ou outra viagem para os eventos de antigomobilismo.
Saldanha brinca com o fato de o automóvel ter chegado à família primeiro que ele e ainda faz planos para que o Ford 1915 permaneça ali por um longo tempo. ''Meu neto mais velho já sabe tudo sobre o carro e espero ensiná-lo a dirigir esse veículo um dia. Quero que fique com a gente para sempre'', diz.

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