Ford 1929 traz o banco da sogra
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de agosto de 1998
Mauricio Della Barba 
Não é um prazer, é uma doença. Assim descreve Irineu Augusto Mello, um paulistano de 57 anos, sobre sua paixão por carros antigos. O engenheiro, que mora em Londrina há 27 anos, tem um minimuseu de carros escondido entre dois galpões na cidade. Entre a poeira e as luzes que varam o teto, 20 veículos raros contam um pouco da história de 38 anos da indústria automobilística.
Seu maior orgulho é um Ford 1929 Cupê, todo original e em bom estado de conservação. O carro é tão especial, que Mello até escolhe que pode andar com a raridade. Não é para menos. Foi com um modelo deste que nasceu sua doença, como ele próprio diz.
Lembra até hoje, quando era criança, das primeiras voltas no Ford 1928 que seu pai havia comprado. O prazer foi tão grande que em 1960, Mello fez questão de comprar um igualzinho ao do seu pai. O carro foi comprado de um gerente de banco da época a duras economias. O Ford Cupê custava 160 contos, o que para o jovem de 19 anos era muito dinheiro. Mesmo assim, junto com seu irmão, conseguiu reunir 100 contos, e os outros 60 contos, o próprio gerente fez um empréstimo do banco que seriam pagos em duas vezes. Pronto. Mello começava a adoecer.
O carro ainda funciona e traz detalhes originais da década de 30Desmontou e reformou todo o carro assim que o trouxe para casa. O Ford, que era verde com os pára-lamas pretos, ficou vinho bordô. Andava sempre arrumadinho, como até hoje.
Ao elogiar o carro, Mello é incisivo: Este carro marcou época, assim como o Volkswagen. Com um alicate e um pedaço de arame ele vai para qualquer lugar. De mecânica simples, o Ford de Mello tem motor dianteiro de quatro cilindros com tração na traseira. Possui três marchas mais a ré. Na parte de instrumentos, velocímetro, voltímetro e o marcador de combustível, que curiosamnete é uma pequena bóia ligada diretamente ao tanque que fica localizado na frente do pára-brisa. Os bancos são todos em couro bege e o destaque fica por conta do banco traseiro escamoteável, mais conhecido como banco da sogra.
Com o Ford, Mello fez inúmeras viagens pelo Brasil. Participou de quatro corridas em São Vicente, chamada de Corrida Anual dos Calhambeques, de 1962 a 1965, onde ganhou uma delas. Em Londrina, participou da inauguração da Via Expressa em 1976.
O carrinho, agora pintado em dois tons de bege, continua andando pelas ruas e chamando atenção. A cobiça é grande, e Mello garante que não vende de jeito nenhum. Conta que, dias atrás, apareceu uma pessoa que propôs a Mello que escolhesse qualquer carro da Ford, zero quilômetro, para trocar pelo Fordinho. O engenheiro preferiu ficar com seu xodó.
Depois do Ford 1929, Mello foi comprando, comprando,... e chegou a acumular quase 30 veículos antigos. Na coleção consta um Ford Erskine 1928 Luxo 4 portas; um Ford 1929 sedã 4 portas, de capota dura, conhecido como Guarda Louça pelo seu aspecto quadrado; um Chevrolet 1946, preto, na época era comum como táxi; um Mercury 50 Coupê, estrela de filmes como Cobra, que segundo Mello, devem existir apenas 3 ou 4 iguais no Paraná; um Cadillac Fleetwood 59, vendido recentemente por Mello; um Chevrolet Impala 63 e outro 68, entre outros.
Clube Mello também faz parte do Clube do Automóvel Antigo de Londrina (CAAL), que conta com cerca de 40 sócios e mais de 100 veículos antigos. O Clube está crescendo e se estruturando cada vez mais. Queremos ter em Londrina um verdadeiro Clube para mostrar a nossa paixão pelo carro antigo. São muitos que gostam disso., explica Mello.
Atualmente, o Clube realiza encontros e eventos, como apresentações no Autódromo Internacional Ayrton Senna, em Londrina, antes de provas de automobilismo. Entre as propostas do Clube está a construção de um Museu do Carro Antigo de Londrina, para abrigar cerca de 30 veículos e se tornar um ponto de encontro dos aficionados.
A idéia foi encaminhada ao prefeito Antonio Belinati que, segundo Mello, garantiu a doação de um terreno perto do Autódromo para a entidade. Já temos as plantas, as maquetes e até o barracão para a construção do Museu. Só falta o terreno, diz Mello.


