''Eu sou do tempo do carro antigo''. Foi com essa frase - e com um sorriso fácil - que o empresário Waldemar Maran, de Londrina, definiu a sua paixão pelos veículos. Em um barracão, ele guarda as suas ''relíquias'' limpas, polidas e cobertas. O cuidado é tanto que para muitas pessoas pode soar inimaginável: ao menor sinal de chuva, o passeio com qualquer um dos modelos é cancelado.

''Perguntam se os meus carros são de açúcar... Mas não saio com eles na chuva para não sujar porque todos são guardados limpos, polidos e dá muito trabalho limpar'', observa Maran. O gosto pelas máquinas começou quando o empresário ainda era menino e costumava observar os poucos carros que circulavam pelas cidades. Naquela época, morava em Paranavaí (Região Noroeste) e, depois de moço, começou a trabalhar como vendedor de máquinas de costura.

Depois de dois anos, conseguiu comprar o seu primeiro carro: um Ford A Phaeton, 1928. O calhambeque era ideal para percorrer as estradas de areia daquela região e para chegar à Londrina, onde vinha passear aos finais de semana. Os pneus finos não deixavam o carro encalhar nas estradas de areia nem nas de barro vermelho. Na década de 60, um Ford 28 já era raro e, por isso, o carro era bem cuidado e mantido original.

Dois anos depois da compra, apareceu um interessado no ''fordinho'' - como Maran costuma se referir ao modelo. ''Pedi um valor bem acima do que valia para não vender. O carro estava inteiro, original, mas acabei ficando sem'', lembra. A contragosto o negócio foi fechado e, algum tempo depois, ''bateu a saudade''. Então decidiu procurar um outro Ford Phaeton - semelhante a seu primeiro veículo - até que em 1985 encontrou um exemplar que lhe agradou.

O carro precisava de restauração, trabalho que consumiu 12 longos anos. ''Não imaginava que demoraria tanto'', confessa. Sem o auxílio da internet - que facilitou a localização das peças para importação - encontrar os itens que faltavam no modelo era uma tarefa difícil. Por isso, a saída encontrada foi comprar outros veículos iguais ao seu para retirar as peças originais. Ao todo foram compradas quatro unidades.

''Quando ficava sabendo que alguém tinha um 'fordinho', ia ver as peças. Uma vez comprei um carro só porque achei que as rodas estavam boas e eu precisava das rodas. Comprei o carro, fui tirar as rodas e vi que estavam enferrujadas por dentro, acabei vendendo do jeito que peguei'', lembra Maran. Segundo ele, era difícil encontrar boas peças nos outros carros porque os mesmos itens costumam quebrar em todos os exemplares.

No entanto, com o advento da internet, peças novas e originais foram importadas dos Estados Unidos, o que contribuiu para agilizar o trabalho. Feita a restauração de forma quase artesanal, ele diz conhecer cada detalhe do seu veículo. ''Conheço o meu carro, desmontava o motor, montava. Só não fiz a lataria e a pintura'', brinca. Depois que o ''fordinho'' ficou pronto, a paixão por carros foi aflorada ainda mais.

Ele começou a participar de encontros de veículos antigos só para apreciar outros modelos. ''Me apaixonava por um carro, por outro, conversava com outras pessoas, ia procurando até encontrar por um bom preço'', lembra. Assim vieram outros, como um Ford Roadstar 29, Fuscas, uma Mercedes-Benz 280 SL, ano 71, conversível, entre outros. ''Para escolher um carro de 20, 30 anos é preciso olhar com atenção, catalogar os detalhes. Nesses carros, a qualidade está na originalidade e é isso que faz o carro valer mais'', comenta.

Acostumado a ajudar quem lhe solicita auxílio no assunto, ele - que já foi presidente do Clube do Carro Antigo de Londrina e atualmente é tesoureiro - explica que para ser considerado uma raridade e ostentar uma placa preta, o veículo precisa manter 80% de sua originalidade, 70% da sua conservação e ter 30 anos. ''Gosto mais dos carros da década de 30, gosto mais de raridades'', comenta.

Apesar da afirmação, ele também não esconde a sua paixão por outra ''lenda'' das ruas: as Mercedes-Benz. Ele diz ter um carinho especial pelos exemplares da família SL e, por isso, ainda espera comprar um modelo SL 500. ''É um carro praticamente isento de defeitos e ainda conseguimos as peças (para reposição) com facilidade'', elogia.

Ator

Mesmo convivendo com modelos teoricamente mais luxuosos ou valiosos, é o Ford 28 que ganha uma atenção especial. Aliás, esse veículo o alçou à uma curta carreira de ator. O empresário participou do filme Gaijin, da cineasta Tizuka Yamazaki, filmado em Londrina e que contou a história da imigração japonesa. Maran fez o papel de um corretor que levava os imigrantes - em seu Ford 28 - para conhecer os lotes de terra vermelha. ''Eles (a produção do filme) queriam que eu emprestasse o carro. Mas o câmbio é problemático e os atores estão acostumados apenas a dar partida para o carro sair andando. A saída foi me convidar para participar (do filme)'', revela, demonstrando uma ''pontinha de ciúmes''.

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