Há vinte, trinta anos, para ser mecânico bastava acompanhar com atenção quem mexia no carro para logo aprender o ofício. Até existiam alguns cursos, mas a curiosidade do aprendiz na maioria das vezes o credenciava para trabalhar na profissão porque os carros eram menos complicados. Com os carros da atualidade, que no lugar de carburadores têm injeção eletrônica, ABS, air-bag, disco ventilado etc., o perfil do mecânico mudou. ‘‘Não somos mais mecânicos. Hoje somos mecatrônicos’’, explica Beno Hoffmann, que há 28 anos trabalha com carros, se referindo à necessidade de dominar, além de motor, eletrônica. Mas será que a categoria está mesmo acompanhando a evolução? E quem não acompanhar, corre o risco de ficar fora do mercado?
João Hoffmann, proprietário da Auto Mecânica que leva o seu nome e que, há 49 anos está no mercado, prefiriu deixar a parte ‘‘nova’’ para o filho Beno. ‘‘Os mais velhos são excelentes mecânicos na parte deles. Mas quando têm que mexer com computador, por exemplo, numa avaliação do carro, eles preferem deixar para os mais novos’’, explica Beno, dizendo que ‘‘quem não se atualizar vai acabar saindo do mercado.’’
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado do Paraná (Sirvepa), Edivino Rossa, diz que as mudanças estão acontecendo muito rápido e que, de manual, tudo passou a era digital. ‘‘Hoje tudo é baseado em máquina e computador. E essa mudança aconteceu rápido demais’’, comenta.
Rossa diz que grande parte dos mecânicos está querendo acompanhar a evolução e se esforçando para não parar no tempo, só que há dificuldade para realizar cursos e se aprimorar. ‘‘Está difícil para acompanhar a evolução. Nós somos um sindicato pequeno e, por isso, não temos condições de contratar professores, peças para ensinar etc. Mas vamos montar mais cursos, porque quem não se profissionalizar, com certeza fica fora do mercado’’, explica.
E essa é justamente a queixa de Elbe Macedo Júnior, proprietário da Auto Mecânica Pimpo. Para ele, o que está faltando são mais mecânicos que entendam da parte moderna dos automóveis. ‘‘É necessário que o sindicato dos mecânicos dê cursos para eles, porque quem não fizer, está fora do mercado de trabalho. Hoje não tem como mexer em um carro novo sem fazer um curso antes. E só 10% dos mecânicos entendem da parte nova’’, comenta.
Macedo Júnior diz que os patrões estão mais preparados porque o Sindirepa ministra cursos para os donos de oficinas se familiarizarem com as novas tecnologias. ‘‘O nosso sindicato costuma fazer cursos para os patrões. E é muito importante investir em equipamento, aprendizado, porque a tecnologia cresce muito rápido’’, explica, comentando que é necessário muitas vezes tirar o dinheiro do próprio bolso para bancar as máquinas e os cursos fora do país. Diomar Casari, proprietário da Auto Mecânica Box-5, diz que a oficina que não comprar equipamento não vai se manter no mercado ou então vai ficar destinada a só consertar Fusca e Kombi, porque não tem como mexer em carros com freios ABS, injeção eletrônica, por exemplo, sem usar máquinas específicas. ‘‘Antes você desmontava para achar o problema e montava o carro da mesma maneira e tudo dava certo. Hoje não. Se você não usar aparelhagem correta não encontra o problema e depois não consegue montar’’, explica.
Casari diz também que os custos com cursos e equipamentos precisam ser tirados do próprio bolso e que essas despesas não são repassadas ao cliente. ‘‘Se você repassar, você não tem cliente’’, conta.
Natália Regina Silva, proprietária da Auto Mecânica Argélia, diz que para recuperar o investimento feito –no caso dela cerca de R$ 30 mil– em equipamentos e cursos, demora bastante tempo, mas que sem isto, não tem como sobreviver. ‘‘Quem não dominar a tecnologia vai fechar as portas. No caso desses carros mais novos, é muito importante entender antes de mexer, senão em vez de arrumar, o mecânico acaba estragando mais.’’

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