Endereço da nostalgia
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de junho de 2014
Marcos Martins<br>Especial para a FOLHA 
Aos sábados, o número 1.565 da Rua Holanda, em Curitiba, transforma-se em ponto de encontro de juízes, médicos, advogados, dentistas, jornalistas e outros profissionais. Mas, assim que passam pelo portão, estão proibidos de falar de trabalho. "A menos que a profissão tenha relação com carros antigos", diverte-se Flávio Bovo, um advogado de 64 anos que fez da paixão pelas relíquias automotivas uma espécie de segundo negócio.
O trabalho no escritório de advocacia é concentrado de segunda a quinta. Nas sextas, ele dá uma passada pela garagem que reúne Fuscas, Variants e Karmanguias para checar se está tudo em ordem. No sábado, o especialista em direito do trabalho sai de cena. Com a camisa amarela do "Bovo Garage Club", ele recebe os amigos que fez ao longo dos anos e também os novos, que chegam curiosos para conferir os modelos "idosos" do automobilismo nacional.
"Venho aqui reviver um tempo gostoso que não volta mais", resume o editorialista Sérgio van den Berg, amigo de Bovo há mais de 50 anos. Além da amizade em comum, partilham também o gosto pelos Fuscas. "Em 1953, um tio meu comprou um Fusca zero quilômetro aqui na capital e o levou para Londrina. Eu e meu pai fomos acompanhando a viagem. Ali comecei a gostar do carro", relembra Berg. Depois disso, ele trabalhou com vendas na Volkswagen de São Paulo, onde chegou a perguntar para um engenheiro da fábrica quantos parafusos eram necessários na fabricação de um Fusca. "Respondeu na hora: 1470! Nunca esqueci", recorda.
No espaço de Bovo, a quantidade de Fuscas presentes no local deixa clara a paixão do dono. São seis, cada um com uma história. O xodó é bordô, 1968, 98% original. Conserva pintura, rodas, retrovisor e outros acessórios do jeitinho que saiu da fábrica. E Bovo não vende de jeito nenhum. "Já me ofereceram R$ 50 mil, mas esse é como um filho. Não dá pra vender", explica.
Há também um Karmanguia bege, que logo deve ganhar rodas originais e conseguir a placa preta, exclusiva para carros com acima de 30 anos que comprovem mais de 90% de originalidade. E o passeio pela nostalgia inclui, entre outros, um Corcel 1969, um Fiat 147 e um Passat LSE 1986 "iraquiano", apelido dado por causa da exportação do modelo ao país do oriente médio. "Ele era trocado por combustível e o Iraque exigia que o interior fosse todo vermelho, com ar-condicionado e radiador de cobre", detalha Bovo, que se dedica hoje a procurar e comprar carros antigos e revendê-los para colecionadores. Um mercado que, segundo ele, está bastante inflacionado.
"A maioria dos carros está no interior e custava mais barato. A internet fez com que os donos os oferecessem em sites e isso levou o preço para as alturas", lamenta. Mas, para o advogado, carros bem conservados são facilmente negociados, independente do valor. "Não existe pechincha nesse setor. Se o carro está conservado, o comprador paga sem reclamar", revela.
A lei de mercado de outros segmentos se aplica também aos antigos. Quanto mais raro, mais caro. Um Maverick V8 GT e um Karmanguia 1971, em ótimo estado, podem chegar aos R$ 100 mil, assim como um Fusca 1969 alcança facilmente os R$ 30 mil. Os compradores, em geral, são profissionais bem sucedidos que buscam relembrar fatos marcantes vividos a bordo dos veículos.
"É o carro em que ele aprendeu a dirigir, o primeiro que comprou, aquele que tinha quando se casou. Há sempre uma bela história por trás", avalia o advogado, que há mais de um ano está "caçando" um Fusca ano 1973, motor 1.500 e azul Niágara, para atender ao pedido de um amigo médico. "Tem que ser 1.500 e azul Niágara, igual ao que ele tinha quando conheceu aquela mulher que hoje é esposa dele, senão não vale", conta.
Mas, além dos negócios, os encontros dos sábados são mesmo para compartilhar histórias e relembrar momentos vividos nas "máquinas" do passado, como o tempo em que o velocímetro do Fusca era trocado por um de Puma, que podia marcar até 200 km/h. "Nunca que o carro iria chegar àquela velocidade, mas era uma diversão fazer aquilo", recorda com saudades Sérgio van der Berg. "É nossa terapia", resume Bovo.


