Campo Mourão - A história de Delezia Luigia Slomp, 92 anos, serve para calar de vez aqueles que ainda insistem em dizer que as mulheres não levam muito jeito para guiar um automóvel. Pioneira de Campo Mourão, ela aprendeu a dirigir há quase cinco décadas. Carteira Nacional de Habilitação a simpática senhora possui desde 1968; documento que é válido até maio do ano que vem. ''E assim que vencer, vou renovar. Chegarei aos 100 anos dirigindo'', ela logo avisa aos que pensam que a aposentadoria como motorista esteja próxima. Um detalhe: com exceção de uma ''raspadinha'' sem grandes consequências há alguns anos, não consta qualquer acidente de trânsito no currículo dela.
Dona Delézia é uma senhora boa de conversa, leitora assídua, domina três idiomas além do português - espanhol, italiano e inglês -, e tem sorriso fácil. Traços de uma pessoa que olha para trás e fica satisfeita com a história que construiu ao mesmo tempo que cultiva vários sonhos que devem ser realizados em um futuro próximo; mantendo-se em plena atividade.
Diariamente, no período da manhã, dá expediente na imobiliária da família. Mantem ativo o registro no Conselho Regional de Corretores de imóveis (Creci), o mais antigo de Campo Mourão. À tarde, dedica-se a cuidar da chácara onde mora, cercada de uma mata, a quase três quilômetros do centro da cidade. As compras para a casa ela própria faz. Para tudo isso, vale-se do automóvel, um Fox 2006. De vez em quando usa também o Fusca 1985, que recebe tratamento de relíquia. É presente do marido, morto há 21 anos.
Nascida no Rio Grande do Sul, Delezia chegou a Campo Mourão há 58 anos, quando a cidade tinha apenas cinco anos de emancipação, ao lado de Paulino Joaquim Slomp, o marido e homem visionário. Juntos, trabalharam como corretores de imóveis, alugando tratores da prefeitura durante a noite para abrir loteamentos, com ruas largas, inspiradas nas avenidas que viram quando visitaram Miami, nos Estados Unidos, em 1963.
Levando uma vida muito agitada, aprendeu a dirigir em um Jeep 1950. Além dela, apenas outras duas mulheres dirigiam no município que estava começando e hoje conta com 87 mil habitantes. As ruas eram de terras e os automóveis poucos. Atualmente, estão registrados na cidade que ela viu crescer 46.770 veículos automotores. O trânsito está ficando cada vez mais concorrido e as vagas de estacionamento escassas. Nenhum problema para Delezia. ''Se estou sentada ao volante do carro estou feliz.''
Mãe de cinco filhos, avó de nove netos e já bisavó de uma garotinha, gaba-se de ter dado aulas de direção aos netos, para alguns no Fusca. Dos filhos, só uma mora em Campo Mourão, Eda Slomp, que trabalha e reside junto da mãe. Os outros estão trabalhando em outras cidades do País ou fora dele. ''Todos com saúde, o que me deixa feliz'', comenta, orgulhosa.
Falando de carros
Voltando a falar de carros, Delezia vai enumerando os que já pilotou: Jeep, F100, Rural Willis, o Fusca e agora o Fox, do qual ela gosta muito. ''É confortável, muito estável. Já estou até pensando em trocá-lo, mas por um do mesmo modelo, mais novo. Afinal, tenho que ser moderna, não posso ficar para trás'', destaca.
Diante da sugestão que já lhe deram de comprar um veículo com câmbio automático, mais confortável para dirigir, ela torce o nariz. ''Gosto de trocar as marchas''.
Quanto ao Fusca, é um xodó, que serviu-lhe por muitos anos. Agora, sai da garagem só em datas especiais, como nos desfiles do Dia Municipal do Fusca de Campo Mourão, que se comemora em 29 de abril mas que será festejado hoje, a partir das 9h, na praça São José.
Delezia receberia uma homenagem especial do Clube do Fusca da cidade, mas viajou no fim de semana para visitar os filhos no Rio de Janeiro. Assim que voltar, os ''fusqueiros'' entregarão-lhe as honrarias.
Vida
Sobre a disposição que tem para viver, a pioneira simplifica. ''Tendo prazer de viver e saúde, vai-se longe. Sorrir também é importante. As pessoas não podem viver sem sorriso'', diz a mulher que só tem um problema na coluna que lhe obriga a recorrer a uma bengala. Ela só lamenta a falta de educação no trânsito e as más condições das estradas, pedagiadas, porém não duplicadas.
Dia do Fusca
O Dia Municipal do Fusca de Campo Mourão relembra a data em que o ex-ministro Superior Tribunal de Justiça (STJ), Milton Luiz Pereira, deixou o cargo de prefeito do município em 1967, ocasião em que foi presenteado pela comunidade com um Fusca zero quilômetro, veículo que ainda possui em estado de novo. Recentemente, a história de Pereira, hoje morando em Curitiba, e seu Fusca foi retratada na FOLHA.

mockup