Curitiba - Mecânica, marcas de carros, motores envenenados, enfim, assuntos sobre automóveis sempre fizeram parte do universo masculino. É assim desde os tempos de criança, quando meninos são incentivados a brincar com carrinhos, cabendo às meninas o mundo das bonecas e das panelinhas. Essa convenção, no entanto, já faz parte do passado para um grupo de mulheres de Curitiba que, em novembro de 2003, decidiram entrar com tudo em um mundo até então unicamente dos homens, e criaram o Clube Elas, o primeiro clube feminino de carros antigos do Paraná.
A atual presidente e uma das fundadoras do Clube Feminino de Automóveis Antigos e Especiais do Paraná, mais conhecido como Clube Elas, Glenys Besler, conta que no início tiveram que lidar com a desconfiança dos colecionadores, que não acreditaram que elas tivessem fôlego para levar a idéia adiante. ''Muitos homens diziam que não ía dar certo, que isso não era coisa de mulher. Mas já na primeira exposição que montamos, conseguimos trazer 200 carros para a mostra, e eles viram que não era brincadeira. A partir daí nós viramos o xodózinho dos colecionadores'', conta.
A idéia de criar um clube feminino partiu de duas amigas, Glenys e Miriam Buso, que já participavam de outros clubes de colecionadores, mas sentiram necessidade de ter mais espaço para a participação feminina. Aos poucos, foram conquistando mais adeptas e hoje o clube ostenta uma carteira com 60 mulheres cadastradas, sendo 20 colecionadoras de outros estados.
É verdade que a maioria das integrantes começou a se interessar pelo assunto justamente por sua então condição de acompanhantes dos homens, levadas pela paixão dos maridos, pais ou irmãos, que já eram colecionadores. Mas isso não significa que já não tivessem a mesma paixão e que hoje não tenham o mesmo conhecimento sobre o assunto.
É o caso de Miriam, atual vice-presidente do clube. ''Eu adoro isso. Não tem dia e nem hora, se precisar eu deito embaixo do carro, vou ver o que tem de errado, posso me sujar sem problemas'', diz. Ex-bancária do Banestado, ela conta que começou a frequentar esse mundo por causa do pai, que foi tricampeão paranaense de automobilismo, pilotando uma ''Carretera'', ou seja, um Ford 39 adaptado para corrida.
Um dia, ao levar o carro do pai para uma exposição em Antonina, ela viu um Ford 29, apaixonou-se e três meses depois já era proprietária de um modelo igual. O carro foi reformado e adaptado, recebeu um motor de Maverick 1974 e virou um ''hot road'', ou seja, um carro antigo com mecânica moderna. Miriam conta que para decidir sobre a reforma do carro, teve que ler e entender sobre o assunto. ''De tanto lidar, ficar perto, passei a entender'', afirma.
A aposentada Ivone Imay, por sua vez, divide até hoje a paixão com o marido. Tudo por causa da vontade de preservar um Karmanguia 1967, carro da família há 35 anos. Além de antigo, o carro tem valor sentimental. ''Quando casei com o Imay ele já tinha o carro, foi com ele que nós rodamos Curitiba para achar uma casa para comprar, que levei as crianças na escola'', conta. Hoje o Karmanguia é só usado para passeio em fins de semana, assim como o Maverick 1976, dado de presente para um dos filhos, herdeiro do mesmo gosto pelos carros antigos.
Hoje, o Clube Elas tem em seu calendário dois grandes eventos anuais: uma grande exposição no mês de junho, e um encontro em comemoração ao aniversário do clube, em novembro.
Para Ivone, o principal diferencial que conquistou a confiança dos colecionadores do sexo masculino foi o modo mais responsável e cuidadoso das mulheres na hora de organizar uma exposição. ''A mulher pode não entender perfeitamente de carro antigo, mas os colecionadores confiam nelas porque ela sabe zelar mais por suas preciosidades'', diz.
Glenys acrescenta, ainda, outras duas características importantes do Elas, que o diferenciam dos demais clubes existentes. Uma delas é seu espírito democrático. Ao contrário de outros eventos, que restringem a participação a determinados segmentos, na exposição do Elas todos os clubes são convidados. Assim, a mostra reúne tanto carros de fibra (vidro, carbono), como os de lata, importados ou nacionais, originais ou adaptados. ''Com isso, conseguimos a adesão de todos os colecionadores e de sua família'', diz Miriam.
A segunda característica do clube feminino é o caráter filantrópico, marca adotada desde a sua criação. Em todos os eventos realizados são solicitados alimentos como parte dos ingressos, e a inscrição dos expositores é revertida em alimentos ou roupas para serem doados a instituições de ação social. A exposição de junho do ano passado, segundo Glenys, teve 30 mil visitantes e arrecadou 13 mil toneladas de alimentos. Hoje o Elas colabora com 17 entidades de ação social.

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