Crise atingiu em cheio setor de caminhões
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de novembro de 2009
Renato Oliveira<br> Enviado a São Paulo 
Há alguns meses, a crise financeira deixou de fazer estragos na economia, mas ainda figura nas planilhas das diretorias das grandes indústrias, principalmente na área de caminhões pesados. Pelo menos, esta é a conclusão de executivos da Scania e Volvo, duas das principais montadoras de veículos de carga que atuam no Brasil, que participaram do Salão Internacional do Transporte (Fenatran) 2009, durante esta última semana, no Centro de Convenções Anhembi, em São Paulo.
Os números não enganam e prevêem uma redução da ordem 10% nas vendas destes produtos se comparados o desempenho de 2009 contra o do ano passado. Segundo Bernardo Fedalto Jr., diretor da linha de caminhões ''F'' da Volvo, a situação só não foi pior porque medidas como redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e facilitação do financiamento ajudaram o setor a ''respirar mais aliviado'' depois do início do segundo semestre.
Fedalto Jr garante que até o final de outubro seriam emplacados 65 mil unidades de caminhões pesados e extra-pesados. Até dezembro, estima-se que 70 mil unidades sejam entregues pelo setor, cerca de 10% menor, se comparado ao desempenho do ano passado quando foram vendidos 78 mil caminhões. ''Só nossas exportações caíram 70% neste ano, devido ao cessar de pedidos na Ásia, Estados Unidos e África'', apontou, ressaltando que estes mercados importam, sobretudo, peças como cabines e motores.
''Ninguém compra caminhão para deixar na garagem. Se fossem apenas medidas de financiamento de facilitação de compras não teríamos uma reação. A economia está rodando e a agricultura e indústria aos poucos se recupera da crise'', avaliou Fedalto Jr, cuja montadora é dona de 20% do market share (fatia de mercado) do segmento de pesados e de 6% do extra-pesados entre as três linhas que fabricam: VM, FH e FM.
Inclusive, a Volvo trouxe da Suécia o modelo FH16, com 700 cavalos de potência. Esta é a grande aposta para não perder mercado para Man Latino América e Mercedes-Benz, que promentem acirrar a disputa pelo primeiro lugar em vendas no segmento. (ver matéria nesta página)
Outra marca que é sinônimo de caminhões, a Scania, também convive com o impacto da tal crise financeira. A redução na receita bruta foi de 7%, se observados os números de produção que recuaram de 8.009 unidades no ano passado, para uma previsão de 6,5 mil unidades em 2009. ''Estamos lutando para adaptar nossa produção aos números, mas as exportações baixaram cerca de 70%. Rússia, Turquia e Ásia pararam os pedidos e até agora não voltaram'', desabafou Christopher Podgorski, diretor geral da Scania no Brasil.
Da mesma maneira que a Volvo só conseguiu reagir após a intervenção do governo, que abdicou do IPI e facilitou acesso a linhas de crédito como o Finame e o Pró-Caminhoneiro, o estrago não foi maior. Sem ousadia para lançar novos modelos, a solução foi repaginar aqueles com boa aceitação entre o fiel público da Scania. As cabines da ''linha R'' foram ampliadas e oferecem mais conforto com mais teto alto e a cabine-leito com duas camas.
A esperança dos executivos da indústria de veículos pesados não é diferente dos demais setores: a redução do IPI precisa continuar até que as coisas melhorem. Segundo Fedalto Jr, da Volvo, como a agricultura e a indústria de gêneros alimentícios e bens duráveis estão apresentando projeção de melhora, a esperança de que o IPI reduzido continue é o que mantém os ânimos. ''Mas, caso não forneça mais a redução do IPI significa um aumento real de 14% nos valores dos caminhões. Isso vai mudar todo o cenário'', projetou.
** O jornalista viajou a São Paulo a convite da Fenatran.


