Como os fuscas chegam a 200 km/h
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sábado, 08 de agosto de 2009
Wilhan Santin<br> Reportagem Local 
Ele já foi veículo militar na Segunda Guerra Mundial e depois de sair dos fronts de batalha conquistou o mundo. Porém, os primeiros proprietários de um Fusca não imaginavam que um dia o carrinho, nascido em 1935 para ser durável e acessível, fosse ganhar as pistas dos autódromos e chegar à velocidade de 200 km/h.
Porém, os Fuscas contrariaram e hoje também são carros de corrida e têm até uma categoria só deles, a Speed. E o mais impressionante é que andam bem e com poucas alterações nas configurações originais, exigência das regras dos campeonatos. Se a reta for longa, como a do Autódromo Internacional de Curitiba, que tem mais de 400 metros, é possível chegar aos 200 km/h.
Em Londrina, o mecânico Wilson Carlos Bonilha, o Grilo, é um especialista em Fuscas. Ele começou meio por acaso no ramo, ainda no tempo em que morava em Cambé e tinha uma oficina de manutenção. ''Um dia apareceu um rapaz com um Fusca de corrida na minha oficina e pediu para que eu preparasse. Apanhei muito no começo, mas acabei aprendendo. Aos poucos foram aparecendo outros pilotos e eu virei preparador'', conta Grilo, que acabou trocando o ponto em Cambé por um barracão de aluguel na Avenida Henrique Mansano, em frente ao Autódromo de Londrina.
Disposto a revelar alguns dos segredos que fazem os ''herbies'' chegarem aos 115 cavalos de potência - contra 70 (em média) dos originais - o preparador conta que o acerto varia de um carro para o outro, por isso eles precisam ser tratados com particularidade. ''Estou com 10 carros aqui na oficina. Alguns foram fabricados no mesmo ano, por isso possuem o mesmo tipo de chassi e motor, mas é possível sentir diferenças mínimas de um para o outro na hora de pilotar. É algo que não tem explicação, mas cada carro tem as suas manhas'', destaca.
A maioria dos Fuscas que hoje rasgam as retas dos autódromos brasileiros foram fabricados em 1996, são os últimos da época da retomada da produção no Brasil, que havia sido interrompida em 1986, e voltou a acontecer em 1993, a pedido do então presidente Itamar Franco. Mas na oficina do Grilo há também carros 1986. ''A única diferença entre os dois modelos é o chassi, que é mais reforçado, assim como o assoalho, nos mais modernos; isso faz com que a dirigibilidade seja um pouco melhor, pois o chassi não trabalha tanto'', explica Grilo.
Além do chassi, a mecânica é o que mais conta. Pequenos detalhes - dentro do que é permitido pelo regulamento - é que fazem os motores originais, de 1.3, 1.5 e 1.6L chegarem a 6,5 mil rotações por minuto (RPM). Uma das ''artimanhas'' é reduzir o peso da biela (peça que trabalha interligada ao pistão) de 680g para 550g, aumentando os giros. Os escapamentos também influenciam. O limite dos canos é 60 cm. Quanto mais longos, mais velocidade final o carro ganha. Escapes curtos significam aumento de força e menos velocidade final.
O carburador tem que ser original externamente e pode ser modificado por dentro. É claro que os preparadores aproveitam para aumentar o fluxo de combustível dentro da peça. Aumenta a potência e, evidentemente, o consumo. Bonilha revela que na pista de 3.145 metros de Londrina os Fuscas gastam 1,2 litro de álcool - utilizado por ter maior octanagem que a gasolina - por volta.
Internamente, os carros ganham as proteções naturais de veículos de competição, como o ''Santo Antônio'', banco especial e cinto de segurança de cinco pontas. A alavanca de câmbio sofre um recuo de 10 centímetros para ficar mais próxima do piloto e o extintor de incêndio é obrigatório. No painel: conta-giro e marcadores de temperatura e de pressão de óleo e combustível.
Voltando a falar de mecânica, é fundamental a instalação de um radiador extra na parte da frente do carro ou na traseira, mas externamento ao motor, para aumentar a capacidade de refrigeração. As rodas são de 14 polegadas, como as originais. A diferença é a largura, seis polegadas para as dianteiras e sete polegadas nas traseiras. A suspensão também é original, mas ganha um ''retrabalho'' e são rebaixadas ao máximo. Um bomba elétrica de combustível ajuda na alimentação.
Feita a parte do preparador, o resto é com o piloto, que precisa saber acelerar para chegar aos 200 km/h.


