Quando levou seu Volkswagen Polo, ano 2007, à oficina mecânica, na semana retrasada, o técnico de laboratório José Aldevino Carvalho, mal podia imaginar que a pane no veículo tinha origem no tanque de combustível. Ele conta que simplesmente não conseguia dar a partida no carro, que precisou ser levado de guincho. Chegando à oficina, constatou-se um problema grave nas velas, o que era ainda mais improvável. "No final de março eu havia feito uma revisão e trocado todo o jogo de velas", lembra Carvalho.

As peças apresentavam uma coloração laranjada, como uma espécie de ferrugem, presente na ponta ignífera das velas, ou seja, onde é promovida a faísca necessária para a queima do combustível.
Como já havia recebido, em sua oficina, uma série de outros casos semelhantes a esse, o dono da oficina logo apontou que aquela "ferrugem" trava-se do óxido de ferro, originário da adulteração do combustível e que o problema vem se tornando frequente em Londrina, assim como em outras regiões do País. "Também estourou a bomba de combustível e precisei gastar R$ 260 para fazer o conserto. A gente acredita que está comprando uma coisa que está sendo fiscalizada, paga impostos e um combustível caro, mas mesmo assim cai nessas 'roubadas'", reclama o técnico em laboratório.

O dono da oficina prefere não revelar seu nome, nem o da empresa, pois teme a ação de "donos de postos mal intencionados". No entanto, ele afirma que desde o começo do ano esse tipo de caso vem se tornando cada vez mais frequente, levando a buscar maiores informações sobre o assunto, para poder esclarecer e orientar seus clientes sobre o problema. "Até o ano passado era comum ver carros que, por terem sido abastecidos com combustível adulterado, acabavam 'grilando', que é quando vai arrancar e faz um barulho metalizado. Este ano isso foi diminuindo, mas começou uma 'chuva' de clientes com o problema nas velas. Pelo menos um caso por semana chega aqui na oficina", relata.

O que o leva a crer que a substância atualmente utilizada pode servir como forma de disfarçar a adulteração, já que aumenta a octanagem da gasolina, que é a sua capacidade de ser comprimida e queimada apenas no momento adequado. "Com os solventes e outros produtos utilizados na adulteração, a gasolina pode explodir antes da hora. Pode ser que estejam utilizando esse 'pó mágico' para que o motorista não perceba o problema", supõe o dono do estabelecimento.

Para esclarecer melhor o assunto, a reportagem da FOLHA procurou a mesma empresa consultada pelo profissional que preferiu se manter anônimo. É a NGK, uma grade fabricante de velas e outras peças automotivas e que lançou uma campanha para alertar clientes e consumidores sobre o problema. Técnico de assistência técnica da indústria, Hiromori Mori prefere não usar a palavra "adulteração", já que segundo ele, poderiam existir outras hipóteses para a ocorrência, como contaminação ou a tentativa de utilizar um aditivo não homologado.

Mesmo assim ele confirma que desde o início do ano a NGK já recebeu 99 reclamações e que casos desse tipo já foram detectados nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina.

A análise das velas revelou a presença do óxido de ferro e ao enviar amostras de gasolina para um laboratório foi confirmada sua origem no combustível. "Em algumas dessas amostras foi detectada a presença do ferro ceno, que provavelmente se degradou ao ser misturado à gasolina, se transformando naquele óxido de ferro", destaca.

Ele explica que, por ser condutor de eletricidade, o material causa fugas na corrente que provoca a faísca na vela que, sem isolação, reduz a eficiência na queima de combustível. "A superfície isoladora passa a conduzir eletricidade, que vai correr em cima da superfície da vela."

Em um primeiro momento o resultado é a dificuldade de partida em médias e altas rotações, além do aumento no consumo de combustível. Mas em pouco tempo o problema evolui, até o motorista não consegue mais dar partida.

Além das velas, o óxido de ferro pode se acumular no catalizador do veículo, aumentando ainda mais os prejuízos.

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Consumidor deve ficar atento

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