O ano é 1938 e o então menino José Gasparine acaba de chegar com a família à Londrina, na esperança de crescer com o município fundado apenas quatro anos antes. Morando num sítio na zona rural, o garoto se encanta com alguns automóveis Ford 29 que vê pelas ruas a tal ponto que decide: ''Um dia terei um carro desses''.
O menino cresceu, se tornou mecânico e há 37 anos realizou seu sonho. E a profissão escolhida facilitou a restauração do Ford. ''Ele (o carro) estava muito ruim quando o comprei e comecei a reforma. A lataria, um profissional especializado fez'', lembra Gasparine.
Hoje, aos 77 anos e já aposentado, o mecânico exibe um Ford 29 totalmente original, digno de placas pretas, e recorda, com orgulho, a luta para adquirir as peças e acessórios que compõem o clássico que marcou a indústria automobilística. ''O que não consegui encontrar no Brasil tive que importar. Fomos fazendo aos poucos, terminei há cerca de 10 anos'', revela.
Na cor bege e com detalhes em preto e marrom, o Ford tem a parte elétrica toda preparada em seis volts diferentes dos automóveis atuais, que apresentam 12 volts. A mecânica simples é compensada por toda a classe e o charme do design apresentado pelo veículo. ''Apesar de ser uma mecânica menos moderna que a atual, hoje é muito difícil conseguir colocar um carro desses para rodar. São poucos os mecânicos que sabem como tudo funciona. A indústria está muito automatizada'', reclama, ressaltando que ver o Ford 29 em plenas condições de uso é um prêmio.
Um detalhe faltando, no entanto, ainda mexe com Gasparine: a capota removível. ''Ele é conversível e preciso mexer nisso ainda. Apesar de já estar comigo há muito tempo, tem sempre alguma coisa para fazer'', revela, em tom apaixonado.
Atraente, o Ford 29 sempre leva possíveis compradores até o ex-mecânico, mas a eles o proprietário avisa: o plano é deixar o popular ''Bigode'' para seus familiares. ''Me sinto realizado por ter alcançado esse sonho (comprar o veículo) e pretendo deixar o carro para os meus filhos e netos'', afirma.
Mais um clássico
Apesar da idade avançada e de ter parado de atuar como mecânico oficialmente há alguns anos, Gasparine esbanja saúde e, além de zelar pelo funcionamento do Fordinho, tem arregaçado as mangas para trabalhar em um novo projeto, que espera concluir em breve. O automóvel em questão é outro dos clássicos produzidos pela Ford.
O Custom 1949 ainda fica escondido na garagem, mas em breve pode ganhar as ruas. ''Ainda falta reformar algumas coisas e colocar o motor, mas já estou trabalhando nele'', avisa.
No entanto, o proprietário faz uma ressalva. Para ele, o tempo que todo o processo vai levar não é o mais importante, mas sim realizar um bom trabalho no modelo. ''Vou fazendo devagar. O mais importante é que tenho com o que ocupar a cabeça'', conclui.


Colecionador mantém sonho de menino na garagem
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