DivulgaçãoA Toyota Hilux vendida no País é produzida na terra do tangoMuitos motoristas brasileiros podem não dar conta, mas a chance de estarem dirigindo um carro argentino é cada vez maior. Com o Mercosul, os modelos produzidos nos países integrantes deste mercado comum - Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai - não pagam impostos de importação e ficam com status de veículos nacionais. Assim, cada vez mais marcas nacionais e estrangeiras utilizam principalmente a Argentina para complementar as linhas neste lado da fronteira. Com um detalhe: na maioria dos casos, em nenhum momento a origem platina é citada.
Com isso, muitos brasileiros que estão comprando carros que pensam ser nacionais ou importados de países de primeiro mundo - principalmente a França - acabam pilotando um legítimo produto da terra do tango. E a proliferação silenciosa argentina nas garagens brasileiras tende a aumentar. O governo brasileiro autorizou a Argentina a exportar um número extra de carros para o Brasil sem precisar importar a mesma quantidade, ignorando as leis do Mercosul, que dizem que as importações e exportações entre os países membros devem ser equivalentes. E a cota, que era de 85 mil veículos anualmente, ainda ganhou um reforço extra, em maio, de mais 22 mil carros, para 1997 e 1998.
DivulgaçãoA linha Escort, como a Station Wagon, também é fabricada em solo platino
Assim, fica assegurada a invasão dos carros argentinos nos próximos anos. Mas, se depender das montadoras, só quem for curioso e perguntar muito poderá saber a origem do carro. Isso porque as marcas alegam que os compradores não fazem questão de saber a origem. ‘‘O consumidor não faz restrições quanto o lugar de fabricação dos carros’’, garante Herivelto de Souza, gerente de marketing da Ford.
Mas não é isso que muitos vendedores observam no dia-a-dia. ‘‘Há um receio dos compradores por causa dos primeiros modelos argentinos, que eram mal-acabados’’, explica Paulo Bittencourt, do departamento de vendas da Autobrás, revenda Ford no Rio. ‘‘O trauma apareceu porque a mão-de-obra nas fábricas argentinas era pouco preparada’’, justifica Valdir Amorim, diretor da Milano, revenda Fiat em São Paulo.
DivulgaçãoA família da nova pick-up Silverado também é produzida em solo argentino
Os carros argentinos ganharam fama pelo acabamento inferior e pela dificuldade de se achar peças de reposição para os primeiros modelos importados, como o Escort Guarujá e o Fiat Duna. Talvez para não atrapalhar as vendas, nem as propagandas escapam da amnésia. Enquanto modelos fabricados na Europa, no Japão, nos Estados Unidos e até na Coréia têm sua origem utilizada como arma de marketing, poucos lembram de citar a nacionalidade platina dos seus carros.
Na propaganda do Polo Classic, por exemplo, um grupo de crianças fala da origem dos modelos importados dos seus pais. Um é alemão, outro francês, mas o garotinho que o pai tem um Polo Classic afirma que o veículo de sua família tem todas as nacionalidades citadas pelos amiguinhos. É uma alusão da Volks para mostrar a proposta de carro mundial do modelo. No meio de tantos países, a criança só esquece de mencionar a Argentina, onde o Classic vendido no Brasil é fabricado.
Apesar do silêncio que os cerca, não são poucos veículos de montadoras nacionais que vêm da Argentina. Além do Polo Classic, o Gol CL1.6, a Ranger XL 2.3 e a linha completa do Escort e da pick-up Silverado são fabricados em solo platino. Mas não são só os modelos de marcas instaladas no Brasil que disfarçam a real nacionalidade.
As marcas francesas são as campeãs em utilizar as linhas de montagem platinas para invadir o Brasil. O motorista de um francês Peugeot 306 XR ou Renault Clio, por exemplo, está dirigindo na verdade um carro made in Argentina. A Peugeot ainda traz o 306 XN, o 306 sedã, o 405 e a Pick-up 504. Já a Renault tem como compatriota do Clio, o Renault 19. Mas os franceses não são os únicos. A Toyota com a Hilux e a Mercedes com o utilitário Sprinter seguem a trilha argentina.

mockup