A estratégia da Renault de oferecer seus carros, mesmos os 1.0, com airbag duplo de série reflete a evolução que os carros vêm tendo nos últimos anos e deixa uma pergunta: até que ponto as montadoras acrescentarão itens de segurança e conforto em seus modelos básicos sem com isso aumentar significativamente o preço aos consumidores?
No caso da Renault, a empresa garante que está oferecendo o airbag duplo sem aumento de preço. Isso se deve a uma estratégia para ganhar força no mercado brasileiro. ''É um diferencial para conquistar mercado'', conta Dominique Musset, gerente de Marketing da Renault.
No entanto, Musset não acredita que isso seja uma tendência a curto prazo para carros populares. Como ele mesmo explica, o Clio pode ser considerado um ''popular avançado'' e por isso, pôde contar com o equipamento. ''Acho que, para carros acima de R$ 17 mil, o airbag duplo é uma tendência. O custo pode ser elevado, mas o fato de ter o equipamento agrega valor ao produto. E daqui algum tempo, o consumidor que compra um carro nessa faixa de preço não vai aceitar um carro sem airbag duplo, por exemplo.''
Musset explica que a razão pela qual ele não acredita que alguns itens como ABS, airbag e ar-condicionado sejam uma tendência próxima nos carros populares é que o a maioria dos consumidores desse tipo de automóvel ainda não enxergam esses equipamentos como itens de segurança e por isso, pensam que não necessitam deles.
Mas o gerente de Marketing acredita que para os carros médios, que custam entre R$ 25 mil e 30 mil, existe uma tendência de cada vez mais transformar itens que eram opcionais em itens de série.
Para Thomas Buckup, gerente de Marketing de Produtos da Volkswagen, agregar itens de conforto e segurança não é uma tendência nos carros populares. Ele diz que alguns equipamentos, como o espelho no lado direito e o encosto de cabeça, por exemplo, entraram na produção dos carros por exigência do novo CTB (Código de Trânsito Brasileiro). ''O espelho já é mais antigo, mas o encosto virou de série porque o Código exige'', comenta.
Dois exemplos dados por Buckup de itens que viraram de série em todos os carros, embora não fosse exigência do CTB, foram os vidros verdes e as chaves imobilizadoras ou codificadas, que, segundo as montadoras, impossibilitam o furto sem a chave original. ''O custo não é muito alto e vale a pena colocar. Para o cliente é importante. O valor do carro não vai precisar subir.''
Buckup diz ainda que, quando o item incorporado é muito caro, a montadora precisa aumentar um pouco o preço do veículo. ''Se não subir o preço, vai baixar a margem de lucro da montadora, e ninguém quer isso.''
Samuel Russell Júnior, gerente de Marca Corsa, da General Motors, diz que já houve muita evolução nos carros populares em relação ao período em que foram lançados, no início dos anos 90. De acordo com ele, essa evolução foi conseguida sem aumentar o preço histórico destes produtos. ''Antes os carros eram apenas meios de transporte. Hoje são mais confortáveis e seguros e o consumidor não precisou pagar mais por isso.''
Ele cita itens como pneus mais largos, controle interno do retrovisor, tecidos de revestimentos mais resistentes, encosto de cabeça no banco traseiro, cinto de segurança de três pontos, limpador e desembaçador no vidro traseiro, pára-choque na cor do veículo, entre outros.
No entanto, Russell não acredita que opcionais como ABS, ar-condicionado, trio-elétrico, direção hidráulica se tornem de série nos veículos 1.0. ''São equipamentos muito caros. É difícil oferecê-los sem aumentar o preço do veículo. O que pode acontecer é esses itens ficarem mais baratos e o preço ao consumidor não ser aumentado tanto''.
Para ele, o que pode acelerar o acréscimo de itens é a concorrência. ''Se as montadoras perceberem que a Renault está ganhando terreno no campo do 1.0 em função de ofercer airbag, com certeza irão estudar a inclusão deste item nos seus carros.''
Eduardo de Camargo Andrade, diretor de Marketing da GM, afirma que o airbag ainda está longe de ser incorporado porque o consumidor não tem demonstrado interesse em pagar mais para ter o produto. ''Só cinco por cento dos consumidores têm mostrado disposição para pagar mais por um veículo com este equipamento.''

mockup