O Chevrolet Impala ano 59 veio de Nova York. Chegou em 30 de dezembro de 1958. Desembarcou no Porto de Santos. Essa é a paixão de Francisco Gallotti. Ele nasceu no Paraná, mas se criou em Santos. Há cinco anos voltou e agora mora em Londrina. E tem história para contar. Aos 55 anos, o comerciante Francisco Gallotti conseguiu colecionar o que mais gosta: carros. Pode ser paixão, mas ele prefere chamar de ‘‘doença’’. Uma doença saudável.
A brincadeira, como ele mesmo diz, começou em 1963-64, quando os modelos nem eram tão antigos. ‘‘Na década de 70, a doença ficou mais grave. Ninguém mais queria saber daqueles modelos e eram exatamente os mais velhos que eu queria’’, lembra. Pelas mãos de Francisco já passaram raridades como um Karman-Ghia conversível, uma F-100 59, um Chevrolet 57 e um Charge RT. ‘‘Na verdade, gosto mais dos carros da década de 50, são mais esportivos’’, observa.
Além de um Landau 79, hoje ele tem na garagem uma relíquia: um Chevrolet Impala 59, modelo Biscayne. ‘‘Que eu tenha conhecimento é o único do Brasil’’, garante. ‘‘Há outros três no País - mas conversíveis: no Rio de Janeiro, em Brasília e em Curitiba’’.
Detalhe da traseira mostra estilo do desenhoAzul claro, duas portas com coluna, câmbio em cima, com quatro marchas e uma traseira ‘‘asa de gaivota’’... um carro que chama a atenção por onde passa. O Biscayne movido a gasolina tem motor seis cilindros em linha, 146 HP de potência e velocímetro que marca os 200 quilômetros por hora. Por dentro, ele é todo carpetado e tem laterais e bancos em couro azul.
O painel interno é um detalhe à parte. Amplo e com especificações em inglês, traz os marcadores de óleo, gasolina, temperatura, velocímetro e conta-giros (tudo original). Este carro já rodou mais de 190 mil quilômetros. E continua rodando. O automóvel também tem o rádio original, modelo caça-estação. ‘‘Ele ainda toca, quer ouvir?’’, diz Francisco. O proprietário tem ainda as calotas e o estepe originais do veículo (em aro 14 e faixa branca). ‘‘Esse carro tem até manual!’’.
Mas o Biscayne não chegou às mãos de Francisco do jeito que está agora. Para deixar o carro ‘‘zerado’’ novamente, o comerciante já gastou dois anos de reforma, pessoalmente supervisionada. E faltam alguns detalhes. ‘‘O que não está funcionando eu ainda vou mandar arrumar’’, diz. As peças ele mandou buscar nos Estados Unidos, assim como as especificações técnicas do automóvel.
Francisco comprou o carro há cinco anos (é o terceiro dono) e, nesse tempo, montou um book. Logo que adquiriu o carro, escreveu uma carta para os Estados Unidos pedindo as especificações técnicas do Biscayne. ‘‘Veio um calhamaço com tudo sobre o carro, desde sua fabricação’’, conta. Além disso, ele tem fotos, notas fiscais, documentos, catálogos de lançamentos originais e até a 4ª Via (documento de importação), também original.
As histórias sobre este Biscayne 59 são muitas e Francisco sabe várias delas, senão todas. Ele sabe cada detalhe, mesmo da época em que ele ainda não era o proprietário. ‘‘Quando o carro desembarcou no Porto de Santos, o dono não gostou da cor azul. Resolveu pintá-lo todo de branco e colocar estofamento vermelho. Quando peguei o carro, mandei pintar na cor original e tirei as capas vermelhas, deixando o estofamento antigo’’, lembra.
Para Francisco, a história do Biscayne começou diferente. Partiu do filho, Rodrigo, a idéia de levar o carrão para casa. ‘‘Meu pai sempre teve carros antigos. Mas sempre acabava vendendo aqueles que eu gostava. Agora, eu vi este Biscayne, comprei e entreguei pra ele restaurar. Este não pode vender!’’. O pai lembra que já chegou a ter cinco carros antigos na garagem, ao mesmo tempo. Mas alguns ele vendeu e se arrependeu. Já o Biscayne, não tem nem valor comercial para Francisco. Mesmo porque, ele diz que esse não vende mais.
Dificilmente Francisco ou Rodrigo saem às ruas com seu Biscayne. ‘‘É que não gosto de rodar com ele por aí. Na verdade, eu só levo o carro para passear’’, brinca. O Biscayne possui tanque com capacidade para 55 litros. E faz 5 km/l. No total, foram fabricados 311 mil e 800 unidades dessa versão.

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