Bicudos ou caras-chatas?
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sábado, 16 de maio de 2015
Reportagem Local 
Mesmo o observador mais desatento terá notado pela televisão, das arquibancadas ou dos camarotes dos autódromos país afora que a diversidade técnica vista nas corridas de Fórmula Truck transcende a lista de marcas de caminhões envolvidas. Além do confronto entre Ford, Iveco, Mercedes-Benz, Scania, Volvo e Volkswagen-MAN este formalmente instituído pelo campeonato de marcas da categoria , o público nota a ocorrência de caminhões de dois formatos na pista: os de motor avançado e os de cabine frontal.
Nos bastidores do campeonato nacional não são essas as denominações dadas às duas propostas técnicas. Os caminhões são tratados como "bicudos" e "caras-chatas". A análise pura e simples dos números aponta vantagem dos caras-chatas, conduzidos por seus pilotos a 122 vitórias em quase duas décadas de disputas, diante dos 81 primeiros lugares que os pilotos de caminhões bicudos conquistaram em 203 corridas realizadas.
Vale lembrar que os primeiros anos da Fórmula Truck reuniram apenas caminhões bicudos no grid. Francisco "Paco" San Martin, nos anos 1990, era o único a apresentar um cara-chata, da Volkswagen. E foi só na 59ª corrida da história da competição, abrindo a terceira rodada dupla de 2000, que Djalma Fogaça levou um cara-chata da Ford à vitória pela primeira vez. Os bicudos seriam vitoriosos nas 11 corridas seguintes daquele ano. De 2001 em diante os caminhões caras-chatas configuraram maioria absoluta nos grids e nas estatísticas de poles e vitórias.
"O bicudo exige mais paciência na tocada e é bem mais estabilizado, pela melhor distribuição de peso e de apoio nas seis rodas. No cara-chata a cabine adiantada aumenta o pêndulo no contorno de cada curva", constata Roberval Andrade, campeão da Truck em 2002 com um bicudo e em 2010 a bordo de um cara-chata, sempre da marca Scania. "O bicudo tem aproximadamente 150 quilos a mais de peso, o que também causa maior aquecimento dos freios", aponta.
Andrade pilotou caminhões bicudos desde 2000, sua estreia, até 2006 seu primeiro título brasileiro, em 2002, foi o último conquistado por um caminhão desse formato. Entre 2007 e 2011 foi um dos adeptos dos modelos de cabine frontal. Na sequência, atraído pela já citada distribuição de peso, voltou aos Scania de motor avançado. Na atual temporada, abre mais uma fase de sua trajetória com os cara-chata. Sua equipe chegou a ter, em 2004, um caminhão de cada versão. Enquanto ele próprio disputava o título a bordo de um bicudo, seu companheiro de equipe Pedro Muffato pilotava uma cara-chata.
A situação pitoresca evidenciada há 11 anos na equipe de Andrade é identificada em 2015 nos boxes da Muffatão Racing, equipe pela qual competem Pedro, com um bicudo, e o filho David Muffato, com um cara-chata. David, que competiu por 14 anos na Stock Car, disputou um campeonato completo da Fórmula Truck pela primeira vez no ano passado, com um dos Ford de Fogaça. Na preparação para 2015, testou os dois caminhões da equipe criada por Pedro. "O bicudo é menos nervoso e tem mais equilíbrio em peso entre a frente e a traseira, pela posição da cabine em relação ao chassi. A posição de guiar é muito melhor", compara.
Os Ford são os únicos caminhões da Fórmula Truck com motor de nove litros todos os demais têm capacidade para no mínimo 12 litros e pesam pelo menos uma tonelada menos que os demais modelos. "É um caminhão mais manhoso de guiar, ele exige que use muito o câmbio, por causa da potência do motor, mas é muito bom em tração", descreve David Muffato. O Scania cara-chata ainda exige-lhe adaptação. "É um caminhão arisco de traseira, que não deixa você colocar o pé no acelerador de uma vez só nas saídas de curva. Se não acelerar com calma, como o peso está muito concentrado na frente, ele destraciona", cita.
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