São Paulo O tecido perfurado dos tênis esportivos foi para os bancos dos carros. A transparência das roupas que deu o toque na última Fashion Week estará nos acessórios dos próximos lançamentos da indústria automobilística. As montadoras constataram que, para permanecer na lista de objetos de desejo, o automóvel precisa estar na moda. As empresas criaram no País equipes de designers que acompanham exposições e salões nacionais e internacionais para conhecer as tendências de roupas, calçados, móveis e até artes plásticas que podem ser adaptadas aos veículos.
A indústria automobilística nunca esteve tão ligada à moda como atualmente, constata o consultor Edson D'Aguano, da Consultive, empresa especializada em moda. O design externo, com formas mais arredondadas, ''que lembram o corpo humano'', já é sinal de que os carros deixam de ser vistos como utensílios de uso e passam a ser considerados também produtos da moda, afirma D'Aguano.
A Ford mantém na fábrica de São Bernardo do Campo (SP) equipe de seis designers, todas mulheres, com função específica de pesquisar tendências de cores, tecidos e texturas para acabamentos internos e externos dos carros. Segundo a montadora, mulheres têm mais sensibilidade para detalhes.
Ao repararem nos tênis que começavam a aparecer nos pés da maioria dos jovens, com malhas em tramas coloridas e acolchoadas, as designers da Ford viram a possibilidade de adaptação para os bancos de carros esportivos da marca. ''O tecido não existia no Brasil'', diz a designer Ana Cicon. ''Nossos fornecedores tiveram de desenvolver produto específico com textura macia para o encosto dos bancos. Foi preciso adaptar fios e resinas, mas o resultado agradou.''
O tecido, batizado pela montadora de Carmel, equipa o EcoSport 4WD, a versão fora-de-estrada do comercial leve mais vendido no País este ano. O veículo é apontado pela consultora de moda e estilo Helena Montanarini como um dos modelos ''mais in'' atualmente.
A leveza e a transparência das roupas apresentadas na última edição da Fashion Week, em julho, e os tons dourado dos calçados vão ser incorporados aos carros que serão lançados no mercado em 2006. ''Peças como maçanetas e puxadores internos de portas, ou mesmo detalhes no painel precisam ser diferenciados'', afirma Adilia Afonso, a primeira designer a trabalhar na Ford há 19 anos. Já as peças translúcidas ainda estão em desenvolvimento e, na opinião de Luciana Jansen, é o desafio atual da equipe. Recentemente, aprovou os acessórios de uma série especial do Ka 2006, que será lançado em breve.
Os carros no Brasil têm vida longa. A escolha de cores, tecidos e acessórios exige cuidado extra, pois a moda de roupas, calçados e bolsas é passageira. Por isso, não se pode escolher aberrações, como cores fortes no painel, ensina Adilia. ''É preciso ter bom senso, pois normalmente o cliente fica em média dois anos com o carro.''
As designers da Ford e profissionais dessa área de outras montadoras frequentam desfiles de moda, salões brasileiros e internacionais de automóveis, arquitetura, móveis e decoração e até exposições de arte à caça de inspirações para os carros, além de estarem atentos às publicações e sites de internet que envolvem moda em geral.
Cores internas e externas passam por várias pesquisas antes da aprovação. Como os brasileiros são conservadores nessa opção, bancos ganham apenas fios coloridos para amenizar tons escuros. Na lataria, alguns exageros deram certo. ''Quando sugeri a cor amarela para o Escort XR-3, no fim dos anos 80, acharam que seria um fiasco, mas foi o contrário. O modelo vendeu muito bem'', conta Adilia. Já a versão antiga do Fiesta laranja, bem aceita na Europa, foi um mico no Brasil.
Detalhes em prata, alumínio e material plástico imitando madeira é a tendência que o gerente da área de criação da General Motors, Morio Ikeda, percebeu em recentes investidas pelo mundo da moda. Peças internas da porta e do painel de instrumentos do novo Vectra, que será lançado em outubro, já vêm com essas inovações.
A imitação em madeira brilhante, mais tradicional em modelos de alto luxo como Mercedes-Benz e BMW, foi introduzida no Vectra brasileiro, versão mais sofisticada a ser produzida no País. ''Com base na tendência da arquitetura, em breve chegará ao Brasil também os tons de madeira escura, como o jatobá'', diz Ikeda.

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