Adeus, Kombi
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sábado, 24 de maio de 2014
Marcos Martins<br> Especial para a FOLHA 
Se você estiver ao lado de uma movimentada rua ou avenida, é muito provável que, nos próximos minutos, irá ver uma Kombi passando pelo local. Não é para menos. Em 56 anos, foram 1,1 milhão de unidades produzidas no País.
E não é só no trânsito que ela está presente: também tem lugar cativo no coração e nas histórias de vida de muitas pessoas. "É meu xodó, minha princesinha", resume o empresário Manoel Batista Lima, de 59 anos, proprietário de uma banca de frutas e verduras no Mercado Municipal.
O modelo vermelho com teto preto foi comprado em 1991. Era a realização de um sonho de infância. "Quando eu era garoto, morava no interior do Estado e o vizinho tinha uma. Eu sempre andava com eles e pensava: ainda vou ter uma bichinha dessas", recorda. Quando começou a trabalhar, veio para Curitiba e teve dois Fuscas, até trocar um deles pela Kombi que iria ajudar no transporte de produtos buscados na Ceasa. Prática e versátil, ela não ficou restrita ao trabalho: era o meio de locomoção de toda a família. Levou crianças para a escola, amigos para festas e até grávidas para a maternidade. Em 2007, seo Manoel "aposentou" o veículo e o reformou para ingressar no Kombi Clube Curitiba. Hoje ela é exclusiva para passeios. "Viajo para o litoral com ela. Junta todo mundo e a diversão é garantida", revela.
Ele e outros apaixonados pela Kombi lamentaram a interrupção da fabricação do veículo, ocorrida em dezembro do ano passado. A saída de linha ocorreu devido às novas negras do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), estabelecendo que todos os modelos fabricados no país, a partir de 2014, devem ter airbags e freios ABS. Segundo a montadora, a fabricação do veículo seria inviável com os equipamentos de segurança. "É muito triste. Ela faz parte da história de muitas pessoas e vai deixar saudades", lamenta o vendedor de antiguidades Gerson Lamega, de 61 anos, que durante a vida já teve mais de 50 Kombis diferentes. Da primeira, comprada aos 22 anos de idade, ele relembra as viagens com os amigos. Quantos passageiros? "Quantos cabiam até encher", diverte-se Lamega, recordando um tempo em que as regras de trânsito eram bem mais flexíveis que as atuais. Nos anos seguintes, os passeios passaram a ser com a família, que chegou a acampar dentro da Kombi. Hoje ele tem dois modelos, um 62 e outro 87. São parceiros de trabalho. Elas carregam objetos antigos que vão ser revendidos nas feiras. Ele carrega no peito histórias da Kombi que não têm preço. "Difícil encontrar um carro mais simpático e que tenha feito a alegria do pessoal dessa forma", resume.
Marco Rebuli, o criador do Kombi Clube Curitiba, também lamenta a "partida" do veículo. Em uma ação da Volkswagen, chamada de "Últimos Desejos da Kombi", onde a "velha senhora" faz um testamento e deixa diversos objetos a amigos que ajudaram a construir a história do carro ao longo dos anos, ele foi um dos contemplados. Recebeu uma placa de agradecimento ao clube mais antigo do país a reunir os apaixonados pela Kombi. "O coração está partido. Ele é o veículo da família. Muita gente começou com a vida com uma Kombi e, mesmo depois de estabelecido, não se desfez dela porque se apaixonou. Eu digo que, se a pessoa for olhar a árvore genealógica da família, na sombra dela vai haver uma Kombi estacionada", brinca. O desafio agora, de acordo com Rebuli, é preservar a história do veículo. "Precisamos registrar tudo para que as próximas gerações saibam como ela foi importante e o quanto de felicidade transmitiu", revela.


