Os carros de hoje são muito mais silenciosos do que os de três décadas atrás. Mas o aumento do tráfego e também do padrão de exigência dos consumidores estão levando fábricas como a Renault a se especializarem no controle dos ruídos: do motor ao porta-objetos, passando pela carroceria e até mesmo os pneus, tudo vem ficando mais silencioso.
Mas o futuro acena com muito mais. Novas tecnologias, como o projeto Vênus da Renault, permitirão aos especialistas criar uma espécie de ''assinatura sonora'' para os veículos. Um esportivo realmente soará de forma ainda mais agressiva do que um carro familiar.
Nos últimos 35 anos, os fabricantes têm feito maravilhas para reduzir os níveis de ruídos nos carros: um automóvel produzido hoje faz dez vezes menos barulho do que um fabricado em 1970. Os padrões europeus evoluíram, em quatro fases, de 82 dBA (decibéis no padrão de medida A) para 74 dBA (75 dBA para motores a diesel). É um grande avanço, pois a redução de 3 dBA diminui a potência acústica de sons gerados no exterior pela metade. Esta evolução já seria excelente se a quantidade de veículos nas ruas e o tráfego resultante (e ruído) não tivessem aumentado muito, enquanto a intolerância geral das pessoas ao barulho indesejado nunca parou de crescer.
O uso de simulação digital permite reduzir o custo ao se evitar a dependência dos testes realizados com protótipos. Lançado pela Renault em 1999, o projeto Vênus (sigla do francês para Véhicule Numérique Silencieux, ou Veículo Digitalmente Silencioso) simula ruídos e vibrações para cada componente, com o objetivo de reduzir o nível geral de barulho de um automóvel, interior ou exteriormente.
O Vênus permitiu que os engenheiros projetassem digitalmente a carroceria do novo Clio III, que foi certificado com níveis de 71 dBA (72 dBA com motor diesel), ou 3 dBA a menos que a exigida pelas normas européias. No futuro, a simulação acústica deve chegar a requintes no refino dos sons, ajudando a ajustar a 'assinatura sonora' dos automóveis, que assim terão uma espécie de ''personalidade audível'' mais diferenciada.
Hoje em dia o consumidor é muito sensível à acústica do veículo (do ruído do motor a rangidos e chiados). Este aspecto tornou-se um fator importante na satisfação do comprador, elevando em muito sua importância comercial, já que ele influi diretamente em diversas áreas, tais como: qualidade de vida dos moradores das cidades, conforto ao dirigir, volume de vendas e até mesmo segurança (geralmente, um ambiente menos ruidoso resulta em passageiros menos tensos).
Por isso, especialistas em acústica trabalham para identificar a fonte de decibéis indesejados. Os principais já são bem conhecidos, a começar pelo motor. As vibrações do motor e da transmissão unem-se à combustão para chegar à cabine dos passageiros. O deslocamento do veículo no ar produz ruídos relativos à aerodinâmica, que se somam ao barulho do contato dos pneus com o asfalto. E há ainda o som do ar penetrando nos circuitos de admissão e saída do carro e, além do ruído do ar-condicionado.
O nível desta orquestra mecânica depende da velocidade do automóvel: abaixo de 50 km/h, quem predomina é o som do motor, seguido pelo ruído dos pneus girando no asfalto áspero e quase sempre imperfeito. Acima dos 100 km/h, o ruído aerodinâmico pode se sobrepor aos demais. Os especialistas em acústica tentam primeiro abafar os sons mais elevados, mas procuram não ignorar os demais, que tendem a se sobressair no momento que estas fontes mais destacadas são controladas. Este é um desafio para uma engenharia refinada.

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