OPINIÃO
A renovação do acordo automotivo
A renovação do acordo automotivo entre governo, Anfavea e sindicatos dos trabalhadores deve ser avaliada à luz do superdimensionamento do novo parque automobilístico em gestação no Brasil em mais de 1 milhão de unidade/ano.
Diante de um quadro de saturação da demanda mundial, principalmente nos mercados americano, europeu e japonês, a indústria automobilística passou a apostar no potencial do Cone Sul, delineado pela continuidade da trajetória de redistribuição de renda do Brasil, esboçada nos primeiros dois anos de vigência do Rela e pela consolidação do Mercosul, acrescido do Chile.
Contudo, a instabilidade financeiro-fiscal brasileira e seus desdobramentos no Mercosul, principalmente na Argentina, desenhada desde a crise da Ásia no final de 1997 e encorpada com a decretação da moratória russa em agosto de 1998, conduziu a uma rápida reversão desses pressupostos. Para piorar, os impactos da desvalorização cambial revelaram-se recessivos a curto-prazo, tanto no Brasil quanto na Argentina, que representam respectivamente 70% e 25% do PIB do Mercosul.
Daí que, num cenário que combina perigosamente recessão, índices de desemprego e de inadimplência recordes, com a necessidade de manutenção do controle da inflação - aliás, a principal conquista da sociedade brasileira nos últimos cinco anos -, o governo acabou cedendo às pressões de uma parcela dos oligopólios empresariais atuantes no Brasil e dos fortes sindicatos sediados na ABC Paulista, aceitando conviver com nova rodada de renúncia fiscal por mais 90 dias, período curto para a recuperação da produtividade e competitividade da cadeia automobilística.
No fundo, a definição de diretrizes e programas e a negociação de incentivos para o complexo automotivo têm apresentado reduzida articulação com qualquer esboço de estratégia industrial para o País, englobando a coordenação de interesses conflitantes e a definição de prioridades.
A fundamentação de uma política industrial autêntica requer um exame minucioso das limitações de toda a cadeia produtiva e de sua inserção na gestão macroeconômica, favorecida conjunturalmente pela estabilidade cambial e pela queda dos juros, essencial para a recuperação das vendas a prazo e prejudicada estruturalmente pela elevada carga tributária.
Paradoxalmente, é justamente esse assunto que não tem sido discutido.
Gilmar Lourenço
Coordenador de Conjuntura do Conselho Regional de Economia do Paraná - Corecon/Pr.

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