20 anos sem o Landau
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de maio de 2003
Alan Maschio<br> Equipe da Folha 
Quem nunca desejou possuir um carro grande, verdadeiramente imponente, luxuoso, com motor oito cilindros e podendo pagar somente R$ 15 mil reais? Pois apesar de ter sua fabricação interrompida em 1983, o Landau, um dos mais poderosos símbolos de status já vistos no Brasil, ainda proporciona tal prazer a seus proprietários.
Talvez por todo seu envolvimento com o momento histórico pelo qual passava o Brasil - repressão militar misturada com um grande crescimento econômico - o Landau ainda se faz presente no desejo de muitas pessoas, como Jeferson Monteiro Gonçalves, que possui, desde agosto do ano passado, um Landau ano 80, em perfeito estado de conservação. ''Na verdade, esse já é o meu terceiro Landau'', conta Gonçalves, que está colocando seu carro à venda por R$ 18 mil, não para se livrar de uma despesa, como muitos pensariam, mas para adquirir um modelo mais antigo, ano 74, anterior às principais remodelações do carro.
O preço, à primeira vista, pode ser considerado alto para um carro antigo. Mas é justificado: os proprietários se apegam tão fortemente ao veículo que não gostariam de vê-los nas mãos de pessoas que não os valorizassem. ''Na verdade, não tenho nenhuma pressa em vender meu Landau, tanto que já estabeleci um preço para ele e só o venderei se essa proposta surgir'', conta Gonçalves. ''Na verdade, o ideal para mim seria adquirir o outro carro sem me desfazer de meu Landau''.
O consumo de combustível do carrão não é dos melhores. O Landau de Gonçalves faz uma média de 5 km/l. ''Mas eu acho que os apaixonados pelo modelo não se importam com isso. Além do mais, só passeio com meu Landau nos fins de semana''. Quanto à mecânica, a história é diferente. Segundo Gonçalves, o Landau é um carro fácil de ser consertado e que raramente apresenta problemas. ''E quando surgem defeitos mais graves, a facilidade para se encontrar peças é grande'', diz Gonçalves, que recorre a uma oficina de São Paulo, especializada no modelo.
Solução mais barata foi encontrada por outro proprietário de Landau, Durvalino Bachega. Dono de um modelo 69, Bachega comprou outro Landau em um ferro velho, para que suas peças pudessem ser reaproveitadas. ''Detalhes de acabamento são difíceis de encontrar. Com outro carro, tenho um conjunto completo de peças sobressalentes'', explica Bachega, que diz jé ter recebido propostas de até R$ 30 mil para vender seu Landau. ''Não posso vendê-lo. Adoro o carro, e minhas filhas me matariam se eu me desfizesse dele''.
Bachega usa seu Landau em serviços diários, como ir ao trabalho ou levar as filhas à escola. E suas despesas com combustível são menores do que as de um proprietário de um carro popular, por um detalhe: seu Landau funciona a diesel. O carro, que foi adquirido pelo sogro ainda zero quilômetro, foi adapatado para o diesel em 1972. ''Meu sogro tinha um motor Perkins quatro cilindros e resolveu adaptá-lo''.
O carro foi comprado do sogro em 1993, mas Bachega já o utilizava em várias ocasiões. ''Sempre que ia viajar com minha família, pegava o carro emprestado do meu sogro. O conforto e o silêncio do Landau ao volante são incomparáveis''. E quem vê o carro na rua pensa que o motor diesel é original, por causa de uma adaptação feita pelo seu dono. Na tampa do enorme porta-malas, a inscrição ''Diesel'', feita com as mesmas letras da marca Ford. ''Mandei fazer a inscrição em metal, numa agência funerária'', conta Bachega.
O Landau da família Bachega também gasta pouco com manutenção. Segundo Durvalino, o veículo nunca gastou mais de R$ 1.000,00 anuais com mecânica. ''Quando preciso de pastilhas de freio, por exemplo, uso as de carros como a Rural ou a F-100''.
Por causa de sua aparência de limousine, muitas pessoas que passam pelo Landau 69 deixam bilhetes em seu pára-brisa, interessados na compra do carro ou mesmo em seu aluguel, para casamentos ou outros eventos de gala. ''Mas não adianta, porque não empresto ou alugo esse carro para ninguém'', afirma seu proprietário.


