No primeiro semestre deste ano, a quantidade de veículos convocados para recall ultrapassou a barreira de 1 milhão no Brasil. O número já é superior a 2009, quando 730 mil carros foram convocados pelas montadoras devido algum problema de fabricação. Especialistas justificam o salto como reflexo da crise econômica mundial, uma vez que muitos problemas estão relacionados à matéria-prima e mão de obra, dois fatores que sofreram impactos diretos da crise.
Para Francisco Satkunas, da SAE - Brasil, como o reflexo inicial da crise foi a retração das vendas, quando o governo brasileiro resolveu intervir e estimular o consumo por meio da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados a cadeia produtiva foi pega de surpresa.
''Isso se refletiu no ritmo de montagem de peças e componentes, principalmente nas empresas que precisaram operar com menor contingente de funcionários. Quando o governo reagiu e reduziu o IPI, parte da força de trabalho havia sido demitida e não dava tempo de contratar e treinar conforme os padrões'', contextualiza Stakunas.
Na sua avaliação, os principais fornecedores de componentes das montadoras precisaram demitir grande parte da força de trabalho que já estava capacitada. ''Isso piorou na hora de montar veículos que são equipados com componentes eletrônicos mais complexos e sofisticados, como freios ABS e air bag. Por isso o número de importados em recall também cresceu nos dois últimos anos'', completa.
Para justificar o argumento, o engenheiro mecânico contabiliza que 70% das falhas ocorreram no processo de produção dos fornecedores. O restante estava dividido entre falhas na linha de montagem, cerca de 20%, e nos projetos de engenharia que compreendem apenas 10%. Em 2009, o número de modelos importados em recall foi de 22 no total, contra 13 nacionais na mesma situação. Os dados do Procon indicam ainda que neste ano 14 carros nacionais foram chamados pelas montadoras enquanto os importados já chegam a 11.
Quanto aos prejuízos, ele acha difícil calcular, afinal as montadoras evitam comentar o assunto. ''Mas existe um cálculo de que para cada real gasto no conserto de carros chamados por recall é preciso gastar R$ 2 para recuperar a imagem da marca. É um valor elevado quando comparado à mancha que fica na imagem da empresa'', explica. (R.O.)

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