Quem vê a senhora de figura delicada, olhos pequenos, gestos comedidos e discretos, fala mansa e sempre sorrindente, não imagina a força de Zilda Arns, fundadora e coordenadora nacional da Pastoral da Criança, entidade ligada à igreja católica criada em 1983 e que atua na redução da mortalidade infantil e em áreas como saúde, educação e geração de renda.
A Pastoral é hoje uma organização comunitária integrada por um exército de mais de 242 mil voluntários atuando junto a 37 mil comunidades onde vivem 1,3 milhão de famílias em 3.757 municípios. A Pastoral é reconhecida e premiada mundialmente.
Descendente de alemães, nascida em Forquilinha (SC), 69 anos, Zilda Arns é uma mulher determinada e incansável na luta que assumiu, há 20 anos, desde que (junto com Dom Geraldo Majella Agnelo) fundou a Pastoral da Criança. E, movida por esse objetivo, não se cansa lutar, de falar e de convencer sobre a necessidade de atenção às crianças e aos pobres.
A coordenadora da Pastoral esteve no Sebrae na última quinta-feira, para assinar um convênio que vai garantir a geração de renda por meio do incentivo ao empreendedorismo a 1,1 mil pessoas, principalmente mulheres de comunidades carentes de 236 municípios em oito estados do Nordeste: Bahia, Ceará Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Sergipe. Em entrevista à ASN, Zilda Arns destacou a concentração de renda e a falta de políticas públicas direcionadas aos mais pobres como as principais causas da miséria no País. Veja os principais trechos da entrevista:
ASN Qual a importância da parceria com o Sebrae?
Zilda Arns - É da maior importância porque temos mais de 1,3 milhão de famílias pobres acompanhadas pela Pastoral, muitas delas miseráveis, não têm emprego e não sabem gerar renda e precisam de apoio. E se trabalharmos junto com o Sebrae, existe uma grande esperança de que, aos poucos, possamos ter um trabalho também de sustentação dessa famílias, que gere emprego, renda e economia local.
ASN - Como será o trabalho?
Zilda Arns - No primeiro momento estamos trabalhando em cinco estados do Nordeste. Temos à frente a economista Bárbara Schimitt, que tem PHD em desenvolvimento local e está aplicando essa metodologia no Nordeste, sempre procurando desenvolver o empreendedorismo, principalmente junto às mulheres, organizando-as em cooperativas. Está tentando inclusive abrir mercado para a os produtos gerados por essas comunidades.
ASN - E o papel do Sebrae?
Zilda Arns- O Sebrae está nos ajudando a completar este modelo de atuação, especialmente com orientações técnicas. No futuro poderá nos ajudar a continuar com essa ação ou avançar em outras, porque a instituição tem um trabalho muito importante para a geração de renda para as famílias mais pobres.
ASN - Por que a Pastoral está preocupada com a geração de renda?
Zilda Arns - A espinha dorsal da Pastoral sempre foi reduzir a mortalidade infantil, a desnutrição e a violência na família. Mas para alcançar isso, o analfabetismo era um entrave. Começamos, então, o programa de educação de jovens e adultos. Depois, víamos as pessoas sem ter o que comer, o êxodo das famílias para as grandes cidades na ilusão de encontrar vida melhor. Então, começamos com o projeto de geração de renda. Mas vimos que precisamos de apoio nessa área, que não é bem a da Pastoral da Criança. Por isso buscamos o apoio do Sebrae.
ASN- Lutar para reduzir a mortalidade infantil é lutar também contra a pobreza...
Zilda Arns- O que mais reduz a mortalidade infantil é a informação que a mãe precisa ter sobre os cuidados com a criança. Em segundo lugar vem a redução da pobreza. Quando não se é tão pobre e se tem conhecimento sobre como aplicar melhor o pouco dinheiro, naturalmente esse dinheiro vai render mais.
ASN - Qual a raiz da pobreza no Brasil?
Zilda Arns - Diria que é a concentração de renda, a desigualdade social e a falta de sensibilidade de direcionar as políticas públicas para as áreas mais carentes e famílias mais pobres do País.

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