Concordar com ele sempre foi a pior forma de admirá-lo

Quando estas linhas vierem a público, rios de tinta terão sido gastos, e outros tantos baldes de saliva, para falar da morte de Paulo Francis, o mais importante jornalista brasileiro deste século, um século aliás de jornalistas e de polemistas notáveis - nenhum como ele. Quase não tivemos imprensa no século passado e parece que vamos deixando de tê-la novamente nos já entrevistos albores do Terceiro Milênio, cá no Acampamento. Do Oiapoque ao Arroio Chuí, a imprensa, de modo geral, banaliza-se numa linguagem de enfatiotados, herdeira da pior retórica desta gente piegas, pomposa e provinciana das academias de letras que infestam o país, onde barachéis ociosos e aposentados improdutivos passeiam medalhas e vaidades. As letras, os livros, a reflexão - estes ficam em segundo plano e são absolutamente dispensáveis.
Pois, senhores, o dia em que Paulo Francis morreu foi como se tivesse morrido com ele a última esperança: destemperado, arrogante, amoral , invariavelmente brilhante, três décadas de uma audaciosa e cotidiana leitura do Brasil cessam com ele e morrem um pouco, cá no tugúrio, os meus quarenta e oito anos. De que vale a brisa se a tarde infinda cai? - cantaria pequeno o poeta romântico de Copacabana.
Da excelsa Nélida Pi¤on centrando o mundo em seu peito varonil (êpa!), via rede nacional de televisão, no Roda Viva, da Cultura, a defender o indefensável, ou seja, este antro da mediocridade pátria que é a Academia Brasileira de Letras, de forma enganosa e enganadora, pois o direito à memória não se defende com o aval da mediania e os ouropéis do status quo, ao livro infame e ao mais que infame processo, patrocinados ambos pela Petrobrás, com o intento de ‘‘destruir’’ Paulo Francis, este é o país de Fernando Henrique Cardoso, Antonio Carlos Magalhães e de Michel Temer. Consonante, numa unanimidade ignorantaça quando não ingênua, ou pulha, a massa (de manobra) vai xula e literalmente levando.
O dia em que Paulo Francis morreu, reconsiderei o último e longo telefonema do escritor João Antônio que, às vezes, me parecia insuportável quando disparava seu ódio irrestrito, glauberiano, delirante, aos desatinos com que a mediania paralisante procurava paralisar o país. Com a cratera que por certo a ausência de Francis abrirá nas páginas e no imaginário brasílico, reconsiderei longamente aquele último e terminal amargor com que o escritor João Antônio, via DDD, dentro da madrugada aflita, desancava o Acampamento.
No dia em que Paulo Francis morreu meio que desistimos de continuar nos esforçando para dar uma cara ao Brasil. Será que merece uma cara a solidão mesquinha do Acampamento? - foi o que nos perguntamos sozinhos no escuro.
É raro mas há pessoas insubstituíveis: Paulo Francis é uma delas, não porque seja improvável existir de novo alguém com sua erudição e audácia, mas porque ele foi um desses acidentes sublimes da natureza: ao inventar o personagem Paulo Francis, inventou junto, com engenhosa estratégia, a mais olímpica e temível tribuna (individual) que já foi dado a um intelectual brasileiro inventar, praticando-a com uma assiduidade acachapante e quase monstruosa. O ‘‘sistema’’, escolado, não permitirá que um novo personagem desta ordem venha a integrar, ainda uma vez, a ‘‘ordem’’ unânime da submissão, da subserviência e dos ritos da presepada . Da esquerda provinciana à direita homofóbica estão todos perversa e secretamente festejando o dia em que Paulo Francis morreu.
O crítico Wilson Martins foi feliz de uma felicidade agudamente lúcida, em enquete do ‘‘Jornal Nacional’’: Paulo Francis buscou os amigos que queria e os inimigos que não quis. Quem o conheceu, sabe: era um puro atrás da máscara de enfarada acídia, generoso e solidário com seus colegas de trabalho e, em tempo integral, um humorista superior a qualquer dos nossos humoristas (profissionais) de plantão. Mas não se enganem - concordar com ele sempre foi a pior forma de admirá-lo.
O dia em que Paulo Francis morreu, fulminado por um ataque cardíaco, às 6h45min, do dia 4 de fevereiro de 1997, no seu estúdio a algumas quadras da sede da ONU, na ilha de Manhattan, em New York, morreu um pouco - permita-me a confidência, paciente leitor - da minha humanidade, sobretudo aquela de marginal gozoso dos anos setenta da zona sul carioca e morreram de novo Carlinhos de Oliveira e Torquato Neto, Flávio Rangel e Vianninha, Paschoal Carlos Magno e Glauber Rocha, morreram Brutus Pedreira e Antônia Maria neste dia em que Paulo Francis morreu. E, pela enésima vez, desde morto em novembro, o escritor João Antônio morreu de novo e novamente ainda que a memória de seu corpo de vivo estrebuche insistente e esperneie por uma nova vez ao Brasil.
Não haverá novas vezes ao Brasil, descobrimos, o dia em que Paulo Francis morreu.

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