Já ultrapassamos, ufa!, o Natal e o Reveillon, as extenuantes férias de janeiro com seu festival de litorâneas sandices, biquinis, sungas, crianças ansiosas e babás sôfregas. Resta esperar pela revelação das fotos da temporada em que, mais uma vez, de prosaica roupa de mergulho, o caçula estará todo dândi e todo prosa, impávida gracinha debaixo do guarda-sol amarelo, entre outros ‘‘instantâneos’’ fatais - como aquele em que triunfas uma barriga cinquentona absolutamente ridícula, ou aquele outro ainda, idiota, em que apareces com os amigos num brinde de chope frente ao etílico mar de Matinhos.
Envelhecestes um ano mais, porém ainda não envelhecestes de todo, posto que resta esperar pela Quarta-Feira de Cinzas, quando enfim, e só enfim, o ano deverá começar - depois do Carnaval, como é de praxe e nos reza desde sempre o nacional calendário.
Que me perdoe uma das solitárias vozes melhor entusiasmadas por este arremedo de Carnaval, que é o famigerado Carnaval curitibano, o meu muito amigo e leal Glauco Souza Lobo, e de quebra, o Carlos Eduardo Mazza, nosso Mazzinha, mas o dito tríduo momesco cá na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais é, senhores, mais que triste, tristíssimo, e põe a nu a ridicularia canhestra de carnes brancas sobrando pelos maiôs mal-ajambrados, canelas magras e também brancas, muito brancas, vencendo as poças da Marechal Deodoro. Em todo carnaval curitibano chove ou faz frio, quando não acontecem as duas coisas juntas.
Não nascemos para o samba, o pandeiro, a cuíca e o ganzá. A própria música pop que produzimos, não no Carnaval, mas ao longo do ano, nem mesmo esta, apesar dos esforços e de alguns grandes talentos isolados, parece, como o teatro da cidade, uma praga - não emplaca. Vergonhoso, mas na hiper-povoada MPB só conheço um clássico legitimamente paranaense - ‘‘As Mocinhas da Cidade’’, dos saudosos Belarmino e Gabriela, e ainda assim, examine o frio leitor, um clássico caboclo, um clássico rural, dificilmente lembrado.
Paulo Leminski tinha uma teoria no mínimo intrigante para o irremovível naufrágio do carnaval das araucárias, ele que era negro por dentro: em meados do século passado, pressionada pelos ordeiros habitantes da Vila, nossa vereança houve por bem baixar severa lei proibindo depois das 18 horas - pasme, gentil leitor - toda e qualquer manifestação dos escravos, sobretudo na forma de ‘‘barulhos e ruídos’’, como os dos atabaques com que os negros sublimavam o banzo e ritualizavam suas crenças. A malta por certo seguia os crioulos nas festas de sacolejo, cachaça e bumbo. Bumbo, leitor, bumbo - ainda não haviam inventado a mulata Globeleza...
Tio Lema era um poeta de teses e tesões, frequentador assíduo da seção de obras raras da Biblioteca Pública, poliglota e fino polemista, mas não acredito que a sua teoria desse conta do excelso mistério que é o de não haver Carnaval em Curitiba, ainda que se esforcem o Cadilhe, o Mazzinha, o Glauco e até, coisa de louco!, o novatrentino Dante Mendonça ou a matogrossense Adélia Maria Lopes.
O Ernane Buchman, que é um pioneiro na defesa desta verdade, a mais veraz, a de que o último Carnaval em Curitiba foi só a projeção de vossa mente ociosa, duplicada pelo álcool e os venenos carnavalescos - cariocas, recifenses, baianos, transmitidos em rede nacional pela TV, pois o Ernane Buchman se não possui, a exemplo de todos nós, uma teoria que explique o absoluto desenxavimento de nossa cambaia folia, foi macho de machidão atrevida ao se constituir no primeiro brasileiro a falar mal de uma coisa que nunca aconteceu. Conseguiu.
Até hoje, quando a discussão é se existe ou não existe Carnaval em Curitiba, o Buchman é chamado a opinar, sobretudo em melancólicos programas de debate na televisão, mantendo invariavel a convicta certeza da segunda alternativa. Isto é que é coerência! Acho que o Buchman, mais que um executivo bem sucedido de nossa publicidade, vai ficar mesmo na história por ter sido o primeiro ser humano a dizer de público, alto e bom som, com o desfile das escolas-de-samba passando na Marechal: ‘‘gente, isto não existe!’’ Com o agravante de que não era um elogio.
Sobra, claro, o Hélio Leites e sua tchurma: o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Botão. Mas ela é tão ínfima e tão mínima, feita de carretéis, palito e caixinhas-de-fósforo, que não passando na avenida é como se tivesse passado e, passando, é como se não passasse. O que, claro, é mais, muito mais que um samba-enredo.
Bem, até 1997!
Evoé.

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