Wilson Bueno
7, MARÇO, 1972
Madame Satã é por vezes mais frágil e delicado que uma criança. Não quero, para mim, justificá-lo e muito menos nutrir por ele aquela espécie de simpatia consoladora que é a marca registrada dos que compreendem o que extravasa o normal, o cotidiano, o café-com-leite de todos os dias. Hoje à tarde, li o seu livro de memórias, numa enfiada.
Bebemos e conversamos, durante quase toda a noite passada, num bar escuso e anônimo do centro do Rio. E ele estava com uma calça florida e o chapéu de palhinha que não larga. Quando, bêbado, lhe escrevi um poema num guardanapo, ele, até então desconfiando (com razão), sorriu.
Descubro, de meu lado, que ele nos assusta e humilha porque já está com 72 anos e ainda segura um copo como ninguém, sem ficar chato e nem se exceder como a maioria dos bêbados. Um bebedor olímpico, como diria William Wiler.
Desinformado e com o chamado peso da experiência que a vida nos dá, Madame Satã me parece às vezes mais próximo de um camelô cândido que do legendário malandro indomável que estarreceu a Lapa, no passado, Robin Hood brasileiro e subnutrido.
E não penso e nem o confundo, como querem alguns amigos, principalmente o católico A.C.V., com Jean Genet. Satã nada tem do francês e nem sabe, e vai morrer desconhecendo se Sartre é costureiro ou nome de grife estrangeira; se Gide foi de comer ou de beber, ou ainda, se Juliete Greco já dançou com Fred Astaire.
Mas ele me falou longamente de Filinto Muller, de Carmem Miranda e cantamos, felizes como dois desgraçados, a noite dada em manhã, e o navio ao mesmo porto, antigos sucessos de Dalva de Oliveira.
1, JULHO, 1973
Vejo, revejo, o bailado sutil das mulheres de Avignon, na cor e no fato de restarem múltiplos os vários ângulos da cara e os seios, todos os seios dilacerados - como a um mamão cortado ao meio, a descoberto os mil e mínimos olhos em ponto negro - úmidos, múltiplos, baços, comuns.
Vejo, revejo, explico: a minha morte em abril, a tua morte em mim, no Flamengo, às três da tarde, velho Pablo Picasso de guerra. Da Civil, na Espanha, que te deixou mais estilhaçado que as balas no coração do poeta Federico Garcia Lorca. E, ainda assim, sobreviventes.
E aquela noite, tão jovem, em que desenhastes o destino? Os homens são várias pombas, dois homens só riem quando o assunto é música - todas as canções de infância, flamenco y toros, o olho mágico voyeur desnudando a porta e ao seu traçado.
O coração de Málaga não esquece de ti e te reverencia, mais triste que vagabundo, antigo Pablo das horas consumidas entre o fogo e o festim colorido do trabalho.
Também revejo a curva da mulher feita com uma só linha, contínua e vaporosa; o fauno exangue e os pássaros, inúteis reclames de paz na área do mundo, porque sorrias em colar sobre um prato em branco o suave espadanar de um peixe ou a fúria malaguenha de oito touros confundidos.
Eu não quero ser romântico e nem nunca chorarei junto à grade do portão de tua casa de nossa-senhora-da-vida porque, mais que quadro, foste o testemunho da vida que se gastou em ti, sobre a tua pele repuxada, talhada em pedra, rústico caminho por onde reencontro o futuro, nesta obscena noite brasileira, um futuro que até pode ser aqui, deste lado, em mim.
5, SETEMBRO, 1969
O exército está nas ruas fazendo as vezes da polícia, revistando, alterando o tráfego, causando gigantescos engarrafamentos em zonas vitais de fluxo de trânsito, nesta cidade já em si caótica. Sequestraram o embaixador Burke Elbrick, dos Estados Unidos.
Dizem que já o localizaram, provavelmente em Santa Tereza. Conhecidos do Departamento de Pesquisa do JB, tensos: fala-se que Gabeira está à frente do grupo que executou o sequestro espetaculoso. Peritos verificam teclas de Remingtons e Olivettis pela redação do jornal. Há medo, horror e pânico. Qualquer de nós é uma vítima em potencial, principalmente diante do aparato repressivo que precisa, urgente, de bodes expiatórios. Mal-saídos de cana, o que mais tememos, por incrível que pareça é que alguns dos que conhecemos antes, durante ou depois do Dops, sejam incluídos na lista dos guerrilheiros a serem libertados. A qualquer hora poderá ser divulgado o listão. Como nos acreditarão inocentes se comungamos endereços, mesmo que com insignificantes líderes estudantis (cujas cabeças valem a vida do embaixador dos Estados Unidos?). Paranóia, claro, mas o clima é este e receiamos, neste tempo obscuro, até mesmo a vizinha gorda e patusca de Nelson Rodrigues.
23, DEZEMBRO, 1969
Não era paranóia: a vizinha podia não ser informante, mas a lista, divulgada alguns dias depois, era encabeçada por Ricardo Villas Boas Sá Rêgo, com quem dividíamos apartamento, e de cuja carreira conhecíamos apenas os (bons) tempos do já então extinto Momento Quatro, grupo vocal de MPB. Todos, no apartamento, não sabíamos que, além de cantar, ele também costumava dar tiros na rua. Mas pagamos o pato. Em guerras não há lugar para inocentes.





