Wilson Bueno
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de novembro de 1996
Wilson Bueno 
Lygia Fagundes Telles, a grande dama da literatura pátria, é - além de escritora exemplar - observadora atenta da importância do céu. É dela uma frase em todos os sentidos feliz: Para quem duvida da existência de Deus, aconselho apenas que olhe para o alto, de preferência numa noite estrelada. E mais não diz nem sugere a autora de Jardim Selvagem, ciente de que a sugestão se encerra em si mesma. Vasto o céu; modesta a terra humana.
Não é de hoje, sabemos, esta vigilância, umas vezes perplexa e outras tantas até mesmo terrível face ao imenso cósmico que, não só acima de nós, como reza nossa vã geometria, nos habita e penetra de todos os lados. Péricles (495-429 a. C.) cujo século em que viveu - privilégio único na História - passou a ter o seu nome, além de urbanista genial, costumava explicar frente a este mesmo céu que nos protege: Todo o Partenon foi concebido nas horas em que, livre das missões de Estado, para cientificarmo-nos de que éramos quase nada, eu e meus arquitetos olhávamos fixamente o céu. Não é só uma boutade humilde do ateniense ilustre senão a própria senha para que decifremos a delicada sabedoria com que exerceu o poder (por mais de 15 mandatos!) na antiga Grécia. Entre nós, muita vez, meio-mandato basta para que o governante peticione aos canais competentes a sua, dele, inextricável condição de Deus...
Mas confrontar gregos antigos com humanóides da hora é quase como comparar gatos a cães, para lembrar um ditado luso-trasmontano muito caro a Miguel Torga, também ele expectador assíduo das noites coimbrãs e do mistério nelas da vigência de suas estrelas. Pois são os humanóides da hora a anunciar, na semana, a descoberta de um planeta maior do que Júpiter (142 mil kms de diâmetro!), com massa 60% superior ao do gigante do sistema solar. O planeta, que ainda não tem nome, orbita a estrela 16 B da constelação do Cisne, muito próximo da Terra - a 100 anos luz, na Via Láctea.
Enquanto isso, Europa, a mais intrigante lua de Júpiter, anunciam os jornais, deverá se constituir no objetivo primeiro da Nasa daqui por diante, em direção ao futuro, se o futuro existir por muito tempo. A sonda Galileu, que por lá viaja, tem remetido, entre outras, cá para o planetinha, imagens intrigantes - como a da capa de gelo que lentamente desliza como se num tobogã de lama.
O anunciado procedimento para colher material de Europa é curiosíssimo e dá bem uma idéia da engenhosidade humana que, apesar de menor que o céu, nem por isso merece ser menosprezada: o solo de Europa deverá ser bombardeado, o que elevará as desejadas amostras, numa nuvem de pó e gelo, a mais de 50 quilômetros de altura, na justa órbita da sonda que, tecnológica e diligentemente, as recolherá para posterior análise na Terra.
Mais que no lendário Marte, todas as hipóteses convergem para a existência de uma forma primitiva (inercial no jargão astrofísico ) de vida em Europa, a imemorial lua de Júpiter, cantada em prosa e verso sobretudo pelos interneteiros de agora, aliás, muito mais próximos dela que nossos avós e suas lunetas loucas, buscadoras das noites claras e do doce encanto com que nos vigiam as constelações. Meu longínquo padrinho Agustin Schwölke era homem sábio - descrevia com o dedo, sobre uma cartolina azul, Aquario e Scorpios, Andrômeda e a Ursa Maior. Nós que adivinhássemos o que de fulgor e brilho nos dava generoso o velho céu.
Os humanóides da hora estão mesmo decididos: ainda que a guerra fria, responsável direta pelo formidável avanço da pesquisa cósmica, seja apenas uma vaga lembrança assim meio sinistra, os russos não fazem feio, apesar das crises internas e da galopante miséria: enviam, desde o Cosmódromo de Baikonur, no Casaquistão, a sonda Mars 96 que deverá entrar em órbita de Marte exatamente, pontualmente, precisamente às 2hl5min do dia 12 de setembro de 1997. Objetivo? O estudo da atmosfera com vista aos indícios da vida marciana.
A minha amiga Lygia Fagundes Telles, que acaba de ver reunidos num pequeno e belo livro, editado pela Ática, os seus melhores contos de amor, numa edição destinada ao vasto juvenil público leitor brasileiro, quando perguntada sobre onde imaginava a alma cândida do poeta do cinema, Paulo Emílio Salles Gomes, de quem é viúva, não hesitou: Para além de Netuno, na branca constelação das Armânidas Menores.
E não foi preciso a ela, desta vez, nem mesmo levantar os verdes olhos para o céu.


