Wilson Bueno
Quem nele, aos tapas, teve arrancado o relógio alta madrugada no silêncio do beco das cem portas abertas para o infinito, o beco da cara pálida e uns olhos rútilos caçando gente sob a neblina?
Quem nele o mijado no esgoto deste beco sem saída por onde transitam michês, genis, elzas, vagaus, como quem procura, pânico após pânico, os do beco?
Quem senhor da loucura mansa de seus achados e perdidos, pocilga, amoníaco, covis, bares e balas?
Quem passou raspando o silvo de um trinta-oitão? O beco despista o teco, o túmulo, o turvo, dissimula o beco que no próprio beco existe, ao som da música.
Abre-se etílico o beco-sem-saídas todo de riso ao luar que no beco é uma invenção sozinha, só para etílico vivê-lo na linha do altíssimo-risco, ao beco aventura florada.
Luz o néon modesto o que agora da tua cara?
Vitrinas espalhadas do beco quebram esquinas.
Quem no beco pode dar de cara com o anjo selvagem pedalando uma bicicleta bêbada?
E se for hábil que prove que os do beco não têm saída, e não sentindo firmeza diga ao diabo do redemoinho para que cuide do beco e de sua madrugada opressa feito um retrato kitsch estocado pelo punhal do abismo.
Que sombra aquele de senhor casado rápido se esgueira?
Que linhas sujas as da palma da mão do condenado no escuro?
Que orgasmo de sangue atrás da persiana de veludo?
Que brilho insone de gilete suicida ao clarão ressaca?
Que sonho no sonho do beco é pesadelar água-forte?
Reconsidera-se a rua do beco, noite de sanha e agito - ao claro do beco reconsidera-se as pedras humildes ao sol, porque é do beco o grito da bailarina que despenca, três da tarde,do quinto andar do sobrado feito um ruído-de-facas e procede do beco o rijo cadáver envenenado.
Reprocessa-se pois toda a geografia íntima do beco, no espalho dos guarda-roupas, alvoroço, que nele moram em hotéis.
De quem a hirta cara, o grande nariz e os olhos secos?
De quem o rubi trêmulo no longo dedo tinto de sangue?
De quem o andamento triste de arlequins aos bandos no beco igual que banjos vivos em serenata pierrot?
De quem o murro do rufião que cospe e arrocha? De quem o pente de prata cravado na calva?
De quem este lado todo roído de formiga e pane?
Quem este rosto no espelho do beco da hora vaga?
Quem capaz de espetar no noturno azul do céu o beco um desmoronamento de estrelas e a lua um fio de adaga?
Cante a morte e a noite, cante a vida secreta das coisas um altíssimo céu posto que o beco existe.





