O meu cachorro conversa comigo mal dê oblíqua a luz do dia. É um acontecimento prodigioso que nos põe, os dois, andando um à coleira do outro, batendo o pó das macadames do subúrbio. O verão gesta já junquilhos pelos muros, as azaléas explodem - humildes na sua graça inventada. O arrabalde insiste ipês e brisa pelos caminhos o ar da tarde, e o sol na luz das ameixeiras. Comigo segue o meu cachorro - bicho simples.
Os escritórios têm moças brancas, mexe-se num movimento sem nexo, o centro da cidade, os guardas-de-trânsito estão todos nos seus postos legitimamente confirmados, os metalúrgicos alimentam os altos-fornos, mas o meu cachorro me confirma que nem tudo vale a pena. Os olhos me fixam negros e rudes, os seus olhos, o desse cachorro que vai comigo - confidência, poente, manhãs dolorosas, una canción desesperada, o luxo inútil da tua mão tocando alaúde em Oxford. O meu cão não olha por baixo - altivo me passeia pelas vielas do subúrbio.
Só um trecho de quarteirão, eu e o cachorro contamos o saldo bem trágico do tempo em nós andando: a velha alemã morreu há muitíssimos anos e, com ela, um piano Essenfelder; nosso vizinho da frente sucumbiu à cirrose, isto entre outros miúdos acontecimentos que em vão esquecemos, eu e o meu cachorro.
Depois das chuvas, o sol deu de aparecer insistente e todo o céu do arrabalde se abre num rasgado azul, as grandes línguas-de-vaca anunciam pelos quintais que a grama vai secar e nela, eu e meu cachorro haveremos de saciar esta nossa fome esquiza, assim como um desejo que não se compreende, vaga difusa às seis da tarde em Curitiba, o teu sorriso esplendendo em Siracusa, o meu mal, meu e de meu cachorro, foi o de te querer ente submetido ao nosso jugo, o cão em mim demais - companhia e fuga, laços e ganidos, coceira e sanha, trote e sonho, macadame e novaiorque.
Se eu pudesse explicar o que é entardecer no subúrbio, herdeiro e natural porta-voz de meu cachorro, eu diria que o ar se enche de cheiros, manchas, ruídos, o explodir de uma garrafa no fogo, sussurros, o que falam por baixo, o que falam por trás, a tara secreta da viúva da esquina, murmurada contra o travesseiro - o ar quase não pode, o ar quase não pode mais. O meu cachorro e eu seguimos escalando esforçadas subidas, aéreos pelas descidas vertiginosas, eu e ele alegremente.
Agora não sei o que faça com as patas, insistindo em cavar um buraco, este meu cachorro surpreendente, e me puxa pela corrente, falando um choro compulsivo e arranhando o chão com angústia, bem aqueles olhos meus conhecidos, quando eu e meu cachorro queremos, no estúdio do arrabalde, por exemplo, uma boa história.
E como tudo aqui no subúrbio se sucede de maneira mais ou menos imprecisa, o que meu cachorro quer, logo fico sabendo, é apenas fazer um buraco, sem propósito nem serventia, inútil como um poema, a flor do miosótis, ou que sabiás cantem pelas pereiras. Apenas e somente um buraco, sobre o qual, concluída a tarefa, o meu cachorro mija solenemente.
Posto que nos anime uma atividade desesperada, vamos, muitas vezes, noite adentro, eu e ele, obsessivos farejadores, rastreando o que na noite é mais do que o perfume das buganvílias, o ganir do recém-nascido na esquina de Edmundo Mercer e João Batista Trentin, o sétimo acesso de bronquite do casal presbiteriano que junto finda, na mesma cama, três casas depois da nossa - da minha e de meu cachorro, construção modesta de tábuas pintadas de branco e as janelas azuis.
Assim, eu e meu cachorro, vamos vivendo a nossa vida, aqui no arrabalde, precisados um do outro, chão e terra, ar e ave, peixe e água, aranha e teia, nem sempre correspondendo, ambos, contudo, na mesma equilibrada medida, às necessidades íntimas e inadiáveis de cada um. É assim o negócio dos dias e como não se possa fugir, eu e o cão optamos por arcar com a responsabilidade. Não precisa acrescer o quanto nos custam estas feridas a céu aberto, o tempo que penamos - pornográficos e dolorosos.
Eu e o meu cachorro somos dois animais. Desimporta que a lua não cante ou que o cacto só possa falar um idioma de espinhos, desnecessário dizer que a palmeira dance mal lhe arrepie o primeiro vento, só eu e ele, o meu cachorro, sabemos o que seja, às seis da tarde, no subúrbio, o balir de uma confidência no escuro.

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