Wilson Bueno
Foram mais de 2 anos e meio, exatos 29 meses, 134 semanas e igual número de crônicas publicadas cá neste espaço da VIVA, no gosto vero e gozoso que é este de troar loas numa folha de jornal. Cronicações obsessivas - ora só o descrever atônito da linha do vôo de um falcão, outras os reclamos e as raivas, comichões e coceiras; ora o livro lido na noite insone do arrabalde, outras a cidade ardendo na palma da mão.
Nunca demais destacar como é que a crônica, transformada pelo engenho brasileiro num gênero com leis e medidas todo próprias, alcançou entre nós, sobretudo na qualidade de ofício paralelo à atividade escritora, semelhante tamanho. São os brasileiros os melhores cronistas do mundo, mesmo porque, exclusivamente aqui, e há não muito tempo, vigora a cronicação assim como que uma espécie de vício encantado. De Machado de Assis a José Castello, as folhas brasílicas têm assistido ao formidável enterro de nossa mais recente quimera, transformada, pela escritura, em artigo público a ser consumido por vossa voracidade leitora, em apenasmente alguns minutos de um dia da semana.
Não há, fino leitor, não há maior deleite do que deitar falação em torno do próprio umbigo, e não foi outra, aqui na página 2 desta FOLHA VIVA, a atividade do croniqueiro, em 134 textos e 134 sextas-feiras ininterruptas, nos mais de 2 anos e meio recenseados no início destas mal-traçadas. Sem falhar uma vez sequer!
Mal-traçadas compostas sempre sob a liberdade radical de pauta e tema que a Folha do Paraná confere a seus cronistas e que o editor Luiz Claudio Oliveira, jornalista de muitos quilates, sem hesitar nos garantiu cá neste pedaço de papel. Se fomos alguma vez excessivos ou se, pelo contrário, nos auto-limitamos, a culpa foi toda nossa - a de sermos atabalhoados ou um pouco tímidos, nunca de qualquer instância do jornal. Só isto já valem os (piores) ossos do ofício.
Mas nem tudo são lágrimas e adeuses, para de novo lembrar Machado de Assis, o inventor do gênero que aqui se exalta e dança: toda segunda-feira, o que já acontece desde segunda passada, hás de topar comigo, incansável leitor, à volta dos mesmos novos velhos temas, na Folha 2, lugar de origem, e de onde vim, cá para a VIVA, animado do insensato amor à nossa gaia tribo visigoda, pensar a cidade e os seus pânicos de cada dia. Por ela e por seus acintes, seus luxos e ademanes, a escritura aqui, de quem vive a cidade nas veias feito uma condenação irrecorrível. Curitiba, ai.
E este espaço, embora vos tenha acostumado o desenho horrível da cara do escriba e suas semanais lorotas líricas, passará, gentil leitor, a partir da próxima sexta-feira, a ser ocupado por um artista inquieto e rigoroso, o poeta Roberto Prado, também um perguntador da cidade em nós como um martírio ou o mantra encantatório de suas saudades nossas de mim. Isso mesmo, leitor: uma cidade não vive sem o selo de uma saudade, que é a memória dela, da cidade, em nós, feito uma tatuagem, ou uma vertigem. Como o haikaísta antigo, em Kyoto, com saudades de Kyoto...
Roberto Prado, curitibaníssima criatura, vos entreterá o tédio alguma vez incontornável de viver as tardes da cidade de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais como o emparedado vivo de um conto de Edgard Allan Poe. Tem sestro e musas, o Pradinho, e vos contará histórias inimagináveis - da loura fantasma do Juvevê ao chupa-cabra gay do Xaxim.
Somos assim os cronistas da cidade, bambos e meio de lado. Há uns, inclusive, em que, tarde da noite, pelo corpo crescem pêlos, outros galhos ou cornos, ainda que em nenhuma das categorias nos incluamos eu ou o meu sucessor. De meu lado, trata-se apenas de devoção ao folclore, e o Roberto Prado, acreditem, é só um colecionador de animais vivos. Mas revelará, não duvidem, a identidade do chupa-cabra gay do Xaxim.
Viche!
E até.





