Não, não queira nunca, pacientíssimo leitor, necessitar dos bons empenhos da Telepar para o conserto de vosso telefone - é tudo um descalabro e um pandemônio, não acertam com o endereço, mandam-nos à casa técnicos despreparados que, mais um pouco, saem correndo, ante a menor dificuldade, como na piada do lusitano, sem nada consertar e com o aviso de que logo voltam ainda que não voltem jamais, e as pobres atendentes do serviço 103, ah, estas é que ouvem todas as fúrias e disparates dos usuários.
Não foi diferente, na semana, com este vosso escriba que, possuindo só um número de telefone e vivendo às custas dele para o seu trabalho profissional, sabedor das usanças, que é a prática comum contra o consumidor no Brasil, temeu e tremeu ao perceber que o telefone não dava linha. A terceira vez, pasmem, só este mês!
É sempre assim conosco, os consumidores. Se chegas da loja de eletrodomésticos e o aparelho recém-comprado não funciona, preparai-vos para o pior - tudo se achacará contra vossa vida e, não duvidem, até contra vossa biografia, ainda que sejas a flagrante vítima do desacerto. Não importa: o que vale é que já tirastes a mercadoria da loja e aí para ter de volta o dinheiro ou outro produto, vai toda uma estrada que leva direto ao inferno. Melhor nunca ter nascido.
Sou do tempo em que a Telepar era uma referência nacional e até internacional. Ágil, dinâmica, orgulhávamo-nos de nossa subsidiária de telecomunicações na qualidade de empresa-modelo e da qual não precisávamos temer. Como tudo no Brasil, também a estatal foi sendo corroída por dentro, de modo nem um pouco diverso de suas congêneres mal-das- pernas pelo país afora. A tal ponto que, hoje, um simples conserto de telefone doméstico se converte numa novela trágica.
Se estás a pensar que exagero, vigilante leitor, presta atenção no que eu ia dizendo: aflito, com o segundo emudecimento, só esta semana, de meu telefone, corri ao orelhão da esquina para discar ao 103 em vero pedido de socorro. A atendente, sempre gentil, anotou-me o nome e o número do aparelho, me informando, de quebra, que o prazo mínimo para o conserto seria de cinco horas e, o máximo, de 24.
Como das outras vezes nem um e nem outro tivessem sido cumpridos, passei na paróquia de São João Batista, da Vila Tingui, para pedir um reforço a Deus, ao Diabo e às Falanges Intermediárias. De fato, com esta santa, ou nem tão santa, mãozinha, o técnico da Van, uma das empresas com que a Telepar terceirizou seus serviços, logo apareceu-nos ao portão. Antes não tivesse aparecido: fuçou-nos a fiação, mexeu e remexeu em aparelhos, extensões, subiu, desceu, e tornou a subir ao poste. Acompanhando tudo muito de perto, a família acreditou, por momentos, que nunca mais, em toda a vida, lhe pifaria o telefone.
Não foi bem assim, ouviu Álvaro Dias?, infelizmente não foi: alegando falta de equipamento, deixou-nos a todos, com o telefone - mudo - na mão e às três horas plenas da tarde foi embora não sem antes avisar que já voltava. Duas horas depois, pressentindo que mais uma vez nos passavam a perna, corri, de novo, ouviu Álvaro Dias?, ao 103, e a atendente, ainda que solidária, foi curta e grossa: se o senhor é jornalista ponha a boca no mundo - não é o primeiro caso em que isto acontece.
Mais: como lhe informasse da frequência com que vem pifando o meu telefone, foi ainda uma vez incisiva, e absolutamente esclarecedora: desde que ocorreu a terceirização dos serviços da Telepar isto tem sido a rotina. Indago da atendente o por quê e ela, irônica, me diz para que eu mesmo tire as minhas conclusões. Respondo-lhe que, pelo visto, os ‘‘técnicos’’ da Van engatilham defeitos com vistas a novas visitas e certamente a renovadas mordidas na Telepar, o que ela não confirma e nem desmente, só ri um risinho safado.
Enquanto escrevo isso aqui, já se passaram mais de 72 horas e o técnico, aquele, que subia e descia do poste, mexia e remexia em fios e extensões, ainda não deu as caras e nós, e certamente que não só este vosso escriba em Curitiba, continuamos com o telefone - mudo - nas mãos.

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