Wilson Bueno
Olho lá atrás: tenho dezessete anos, uma inomeável perplexidade e a vaga certeza de que perdi minha vida, como no poema antigo, por delicadeza. Antes que a perca de vez nos desvãos das noites cachorras e atabalhoadas dos iminentes anos setenta, dá-se que acabo conhecendo o Convés e o Urso. Sou tratado com uma hospitalidade quase festeira: o menino do Sul traz o sotaque carregado de Curitiba e, espontâneo em sua ainda adolescência, deve ter caído nas graças dele, animal velho e glorioso.
Ele, o urso, Rubem Braga; o convés - a cobertura de Ipanema. Um e outro captados agora no texto exemplar de José Castello, num livro em todos os sentidos indispensável - Na Cobertura de Rubem Braga (José Olympio Edit., 168 págs.), tocante retrato, umas vezes melancólico; outras, pura epifania, do cotidiano de um dos nossos mais importantes escritores. Não pensem contudo que há nestas escrituras a pompa de uma hipotética precisão que a tudo abarca pela via da verdade terminante e terminal das biografias ditas clássicas. Não, ciente de que contar o ido e o vivido já é recontá-los ainda uma vez, José Castello não faz outra coisa, nestes textos de altíssima voltagem, senão recompor o perfil do biografado sem a pretensão de lhe esgotar de todo o desenho.
No andado de uma overture digna dos melhores textos de Rubem Braga - e é igualmente a aderência ao estilo do biografado que faz deste livro um livro incomum - José Castello nos introduz ao Urso e ao Convés, numa operação poética que mobiliza memória e cenário, humores e temperaturas, angústias e coceiras para produzir as primeiras oito admiráveis páginas de Na Cobertura de Rubem Braga. A melhor arte da escrita a serviço de um mestre supremo da escrita.
Desusado em nossos biógrafos esse gosto pelo que, transcendendo o meramente factual, cria ambiências e humores, vertigens e calafrios. E daí, claro, com mais nitidez, o impacto da vida que se desprende do papel, como é o caso aqui do velho Braga, fazendeiro do ar tocando a roça urbana de Barão da Torre, em Ipanema, na magnífica evocação introdutória O Urso e o Convés.
Mas o livro de José Castello, no propósito sincero de evocar de Rubem Braga o melhor retrato, não fica aí e propõe um jeito novo e superlativamente lúdico de re-contar o biografado: de A a V, o autor dicionariza, de maneira literal, a vida do maior cronista brasileiro, através estampas, iluminuras, gestos recortados no abismo. O retrato em fragmentos, muita vez quase brincantes, antes junta e sublinha o retratado do que - supremo risco! - o estiola e pulveriza. Com mão firme porque animada pelo encanto de moldar nessa coisa aérea e dúbia que é a sempre neblina da memória, Castello nos conduz pelo vário itinerário dos 77 bem vividos e criativos anos de Rubem Braga, ao sabor do Alfabeto, este misterioso jogo com que a Língua se codifica em consoantes e vogais.
Voltando lá, mil novecentos e sessenta e seis: o frangote curitibano, egresso do bairro polaco, a cara cheia de espinhas, tem o ar denso dos marcados para morrer pela e para a velha ars literaria. No bolso do paletó provinciano, demasiado rente ao tórax magro, o manuscrito envergonhado, cuidadosamente dobrado em três. O frangote usa óculos de grossa lente e olha pela varanda da cobertura, o mar lá, imenso, deliquecente, de escandaloso azul. Tem as mãos suadas o frangote. À sua frente, o Urso é quase a Cordilheira dos Andes.
Entanto, paciente, pede que o frangote experimente olhar pela luneta. Verá as ilhas e decifrará, quem sabe, o horizonte, este frangote que vem de Curitiba, conhecendo de cor alguns trechos de Camões mas que nada sabe do mar nem de seus entrechos. Deve ser o que, pensativo, o Urso conjetura e se coça na rede que amplamente o contém.
Tímido, o frangote tira os óculos-para-perto e fixando o olho direito junto ao visor da luneta importada, descortina dali o encapelar-se de longínqua onda no mar que embora ao sol e azul , para o frangote das araucárias será sempre misterioso, cavo, absconso. Então é que o frangote exclama, retornado ao guri do bairro polaco: BarbaridadE!
José Castello, louvável exercício, consegue, em Na Cobertura de Rubem Braga, desengravatar a pudicícia biográfica que em tudo insiste com a desgraciosa tarefa de forçar as coisas a pretensos limites. Vai, entre outras fontes, às mais de quinze mil crônicas do seu personagem e entrevistando-o desde o ângulo leitor, tem, dos verbetes deste dicionário vivo, a resposta mais autêntica e a arguição mais contumaz, porque, sabemos, há de habitar sempre os textos de um escriba, queira ele ou não, e tão só aí, a sua maior veemência.
Da literatura, senhores, não há como escapar. Sobretudo se vos fotografa a alma dos dias este olhar que em José Castello é renitente caçador de essências.





