O país não tem memória e esquece rápido os seus melhores filhos: não seria de outra forma com a morte da escritora Maria Helena Cardoso, recém-falecida no Rio, perto de completar prodigiosos 94 anos. Irmã do igualmente esquecido Lúcio Cardoso, um monstro de nossas letras, autor, entre outros monumentos, de ‘‘A Crônica da Casa Assassinada’’, e também irmã de Adauto Lúcio Cardoso, uma espécie de político que o Brasil não produz mais, Lelena foi o mais sofisticado ser humano que me foi dado conhecer em toda a vida. Ah, meu Deus, que de finura o seu ofício de viver!
Clarice Lispector soube dizer de Lelena o que muitos então tentávamos e não conseguíamos - dizer, de Lelena, por exemplo, que ela era um ser tão raro, mas tão raro, que sabia pegar nas asas de uma borboleta sem lhe desmanchar o desenho. Clarice também não está mais aqui para falar, agora, da morte profunda de Maria Helena Cardoso, o que soube falar de tantas outras mortes, com o seu verbo abismado, de gênio absoluto da literatura brasileira.
Autora de dois livros preciosos - ‘‘Por Onde Andou Meu Coração’’ (1967) e ‘‘Vida Vida’’( 1973), ambos editados pela José Olímpio e que, a seu tempo, mereceram, entre outros, do crítico Wilson Martins, resenhas apaixonadas, a ponto de classificar o último como ‘‘inegável obra-prima’’, Maria Helena Cardoso deixa um diário inédito, de reflexões, e que certamente deverá chamar a atenção de nossos editores. É o diário de toda uma vida que soube ser de uma cintilância acima da média e que experimentou trilhar as sendas, muitas vezes tortuosas, da ‘‘última’’ maturidade, com um brilho de estrela e a quase impossível delicadeza dos anjos.
Maria Helena Cardoso foi, também, um dos seres humanos a que melhor me devotei, um tempo, cá neste trajeto de orquídea e espinho, para lembrar o haikaísta antigo, senhor da sabedoria dificílima de viver, nonagenário e pleno, como Lelena, levando a sua casa nas costas, uma casa que era só uma esteira - de música e de vento.
Tudo se confunde e se mistura na minha cabeça.
Tenho, nos setentas, vinte e cinco anos e o que Lelena chamava de ‘‘uma eterna adolescência’’. Nas noites cachorras de Ipanema bebo um tonel e já quero me suicidar ao fundo das águas apodrecidas da Lagoa Rodrigo de Freitas. Nas tardes baixo calor senegalês e agudizado por ressacas que eram como uma coroa gelada à volta do coração, na sua casa, ao rés do chão da Alberto de Campos, mais de uma vez caí em seus braços, feito quem buscasse a mãe primeira e primeva. Com o luxo de sua exuberância, que era de uma simplicidade de louça, nunca, nem uma vez sequer, Maria Helena Cardoso negou-se ao abraço ou à solidariedade.
Ao tempo em que falar de árvores era quase um crime, a ditadura rugindo lá fora, comunistas notórios frequentavam-lhe a sala de música e com ela aprendiam de Bach aos românticos alemães que ela amava com uma paixão suntuosa. Foi mulher de paixões sem nunca ceder ao pântano dos pálidos e dos mornos. E por isso mesmo viveu a sua longa e prodigiosa vida com uma graça de monja e a luxúria gozosa dos amantes.
De todos os seus amigos, impossível não lembrar a romancista Maria Alice Barroso, a sua ‘‘Malice’’, e que em exatos 47 anos de amizade soube nutrir por Lelena, e à sua altura, o que nenhum de nós conseguiu ou ousou nivelar-se, nessa espécie de afeto em que o tempo antes de acomodar como que agita e transtorna com um ímpeto de grande onda à praia. Maria Alice foi a pessoa que Maria Helena Cardoso mais amou. Impossível medir o que morre em amizades assim tão enormes.
Ao telefone, a voz de Rachel de Queiroz, que tem a áspera determinação e as agruras de seus nordestes dentro, como um destino, até ela, ao me confirmar, na tarde lutuosa, a morte de Maria Helena Cardoso, foi voz tocada pela emoção, ela que, dura na queda, possui, como diz, todo um cemitério atrás de si. Ainda assim, Rachel de Queiroz quase fraquejou.
À cabeceira da cama tenho um quadro de Lúcio que reproduz um anjo roxo de asa quebrada, presente de Lelena em longínquo aniversário. Numa das suaves tardes de vinho, dos domingos de antigamente, lembro dela comigo armando um pacto: quem morresse antes, voltaria, ao menos com um aviso. Ela, faria mexer a asa do anjo; eu, interromperia a audição do Concerto para Clarineta, de Brahms, com um assovio.
Olho e reolho o quadro de Lúcio Cardoso mas a asa do anjo que deveria mexer-se, não mexe, nunca mexeu e nem mexerá jamais.

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