Desde que aderi, por conta própria e risco, à medicina ortomolecular, com o aumento considerável da ingestão, sobretudo de vitamina C, a partir da leitura de um livro precioso de Linus Pauling, o ‘‘inventor’’ da matéria, gripes e resfriados, que combaliam-me o pobre corpo com uma violência inútil e desnecessária, à média (sinistra) de três a quatro, ou até cinco ocorrências, ao ano, desceram-me a quase zero. Acrescente-se aí a prática da natação - de todos os vícios, o meu maior vício - e, claro, a abstinência desta droga pública, liberada e por muitos exaltada, que é, sabemos os ex-fumantes, a nicotina.
Escarrará o leitor, sedentário e tabagista, contra o meu ‘‘edificante’’ modo de vida, argumentando que isto não me garante e nem me garantirá nunca a vitória sobre o enfarto possível, o câncer, o efisema, sem falar de hepatites, tétanos, tifos, sífilis, e até, nesses tempos de malária em Ipanema, a febre amarela. Além, óbvio, de que viver não tem cura.
Concordo com uma e outra, mas sou hoje, para mim mesmo, o exemplo concreto, de que o amor ao corpo, matéria frágil, há de frutificar num élan vital que é, das coisas gozosas da vida, o melhor que a existência pode nos oferecer cá neste insano vale de lágrimas. Não estou imune à queda do avião ou à angina pectoris, como chamavam os antigos ao enfarto do miocárdio, mas me preservo, com obstinada determinação, da compulsão humilhante que faz um homem revirar a lata do lixo atrás de uma guimba amassada e quiçá cuspida, se lhe acaba, no meio da noite, o maço de cigarros. E quase cinquentenário, consigo perfeitamente cortar a unha dos pés, de ambos os dois, com aquele infame cortador, acho que chamado Unhex. Sem gemer.
Mas ia eu assim, robusto e louro, igualmente sem lumbagos ou dord’olhos, quando, neste inverno que ora nos gela até as omoplatas, me decido por afastar, em definitivo, todo e qualquer fantasma mesmo do influenza mais benigno, vacinando-me contra gripes e resfriados na Casa de Saúde Paciornick. Com garantia de um ano e a generosa estatística de noventa por cento de proteção contra o mal.
Ah, leitor, sedentário e fumante, ou atleta e abstêmio, não queira saber o quão insuportável fica um homem vacinado contra gripes e resfriados, andando o inverno de nossa cidade, a peito aberto, sem gorro nem cachecol, tomando o gelado entardecer na cara, assim como uma brisa ártica deste nosso burgo polar. E achando gosto nisso tudo, mesmo nos expressos apertados das seis da tarde onde uma sinfonia de tosses e perdigotos, ranhos e entupimentos (com os consequentes desentupimentos...) invariavelmente vigora.
Eu? Ah, leitor, eu? Nem te ligo - seguramente entre os noventa por cento dos vacinados pelo Dr. Paciornick, ostento uma imunidade, ainda que insolente, muito aquém daquela outra na qual agarram-se políticos e diplomatas, diga-se de passagem, mas imunidade de quem se sabe protegido de vírus e incômodos. Ou ao menos do vírus e do incômodo das gripes e resfriados. Se já me defendia deles antes, com rara competência, o que não dizer agora com a mãozinha dada pela vacina do Dr. Paciornick? Vixe! Não imaginam vocês com que de empáfia! A manta ao pescoço? Puro charme. Que venham os ventos e as borrascas!
Isto até o final de uma tarde na Boca Maldita, onde falávamos (mal) da vida alheia, com altiva bravura e o insensato tórax quase a descoberto, no súbito veranico de junho, quando sinto qualquer coisa arranhar-me o palato. Não dou a mínima importância. Gripe? Jamais. Estou absolutamente imunizado pela vacina do Dr. Paciornick! Cuidando já das costas, ao despedir-me do Prof. Lima e do baixinho, seu escudeiro, Elias, línguas de trapo, ressinto que do palato, a sensação desconfortável já contamina larga parte da faringe. Daqui a pouco estou tossindo enquanto meio zonzo busco um lugar no expresso de volta à casa. No ponto final, em Santa Cândida, capitulo - estou com gripe.
No jantar, a ‘‘Frei Damião’’ já tinha me tomado o corpo, em dores músculo-articulares, congestionamento das vias respiratórias, febre e aguda cefaléia - todos, pela limitação do verbo, absolutamente indizíveis. E como a sua própria alcunha, dela, diz e esclarece, demorou a ir-se embora, agarrando-se ao corpo feito um polvo. Dias de prostração e desencanto, tosses e insônias, injeções e aspirinas. Reforçou-me a carga virótica a vacina do Dr. Paciornick? Ou a vacina do Dr. Paciornick é só um placebo para acalmar a agrura dos hipocondríacos?
Não sei, não entendi. Onde o atleta? De que serviram as pílulas do Linus Pauling ou a vacina do Dr. Paciornick? Abraçado ao vício de existir, entanto insisto - não há como o élan vital para impedir que a gente invista, até com uma vassoura velha, contra ambos.
Atchin!

mockup