Wilson Bueno
Ainda que monstruosamente mal-editados, pela Secretaria de Cultura do Paraná, numa programação visual de jequice e provincianismo insuportáveis, acabam de ser publicados os poemas de Fernando José Karl, Desenhos Mínimos de Rios, um dos vencedores do mais recente Concurso de Poesia Helena Kolody. O poeta não é nenhum estreante, senhor de longa e luminosa carreira já pelos caminhos e descaminhos da velha ars poetica, tão vilipendiada, nos últimos tempos, por traquinagens várias - dos que pensam a poesia como recurso fácil para a blague e o chiste aos que a erigem num bronze de estátua antiga, limítrofes do Parnaso, ainda que esteja estourando por aí o terceiro milênio.
Mas não será o embrulho ordinário que fará menor a poesia de Fernando José Karl. Artesão da palavra medida, senhor de seu ofício, o poeta, desde o início, apela para os mistérios insondáveis que são, de seus recursos, os que mais chamam a atenção - pela pureza com que os reinventa na branca página de papel.
Citando o bruxo de Königsberg, Immanuel Kant, em epígrafe - E pede-se ao homem que tenha a simplicidade do invisível - é como se o poeta indicasse, desde o preâmbulo, que o que se vai ler não é a matéria porosa com que maioria dos novos poetas se enrosca e se embrulha. Não, desde a mirada/mirante de Kant, sabemos, senhores, o buraco é mais embaixo: a poesia de Karl quer, para além da desmedida planície do sonho, a vertigem e o pasmo: No meio do arco-íris um grão oco de cristal. Só isto, só esta frase é toda a poesia grafada num título à maneira dos portemanteaux lewis carrolianos - Arco-íristauro, para começar com, digamos, um simples exemplo.
Há mais, há muito mais, neste poeta catarino-paranaense, capaz de surpreender na cor de uma pedra preciosa, a notícia do Deus da vida como uma síncope ou as desdobras de um susto, perguntador do mistério que há entre auroras e topázios: Auroras soltam a voz no topázio/ ou a voz pode ser topázio com aurora dentro?/ Ou a aurora deve alcançar a dureza do topázio/ até se acostumar à voz?. Isto aí, num poema cujo título é quase um disparate goyesco (Tantos topázios que não serão vistos) e apoiado no Rig Veda (Tantas auroras que não brilharam ainda) intentam domar a sensibilidade leitora através o coruscante veneno das coisas simples ainda que extraordinariamente insólitas.
Aliás, se pensarmos a poesia de Desenhos mínimos de rios, como herdeira da modernidade lítero-brasileira, ou ao menos da modernidade mais recente, que pode ser situada a partir de meados deste nosso fatigado século, veremos que não é , em nenhum momento, tributária da hipotética tradição poética tupiniquim, se é que esta tradição existe ou existiu um dia. A poesia de Fernando José Karl, e não só a de Desenhos..., impõe-se como voz saudavelmente isolada em nossas letras. E isto ganha em importância se pensarmos o poeta e sua relativa juventude, trilhando caminhos que são só seus, mas caminhos que pedem, felizmente, ainda, muita e vera estrada.
Claro, leitor obsessivo de Murilo Mendes, Drummond, Bandeira, Leminski, Rilke, Pessoa, Lezama, Mallarmé, não se dirá nunca que a eles não deva o seu imenso talento, mas o que se pretende aqui deixar explícito é além que a influência: a poesia de Fernando José Karl frutifica-se nela/nele mesmo e nutrindo-se de sua própria seiva, aérea quando a queremos terrena, e concreta quando mais a desejamos transcendente, é uma poética do disparate, da graça de um surreal que, sendo religioso, aspira decifrar a carne do mundo pela via do olho in-exato. Haverá melhor expediente que este para tratar do poema, monstro in-útil e in-verossímel?
O poema em Fernando José Karl é quase um grito em favor da simplicidade que há por detrás da natureza grandiloquente das coisas. Ou de sua luminiscente contra-face - eis o ofício do poeta clamando por peixes mais leves que o sonho.





