Duas estudantes de um colégio badalado da cidade marcam uma entrevista com este vosso escriba: trabalho escolar que deverá somar-se à contagem de notas do semestre. Diante de solicitações dessa espécie procuro sempre, e quase sempre consigo, adiar a entrevista em pelo menos um mês. Não há nada mais aborrecível do que responder a perguntas claramente pré-formuladas por pais ou mestres que costumam tomar uma carona neste tipo de trabalho dos filhos. Não têm culpa os adolescentes: os pais é que gostam de marcar ponto extra junto a seus pupilos.
E depois tem que um dos maiores terrores de minha pobre vida escriba é virar matéria de cursinho, análise sintática do oitavo grau, ou livre-nos os céus!, nome de concurso de contos. É pedir para que os adolescentes de agora, nos odeiem para toda a vida, sem chance de reversão, convertidos nos adultos de amanhã que hão de sempre nos lembrar o nome assim com uma ponta de nojo.
Entanto, dificilmente haverá quem resista ao pedido aflito de duas adolescentes, clamando, na tarde invernosa de Curitiba, por uma entrevista, e nos mentindo, de novo, que fomos escolhidos, livre e espontaneamente, por um grupo de estudantes, ‘‘grande, bastante grande’’, do qual, elas, as duas adolescentes, são só as representantes. Pode ser que digam a verdade, mas desconfio. Nunca se sabe: a sensação é a de que estão sempre nos gozando a cara, mesmo na cerimônia de entrega do Jaboti de Ouro, pelo que testemunham confrades outros, igualmente macambúzios, e desconfiados. E muito mais premiados.
Próximo do fim da tarde, pasmem!, do mesmo dia, me vejo, enrolado em gorros e cachecóis, com a cara da Gertrud Stein uma semana sem Alice Touklas, afundado no puído sofá de meu estúdio da Vila Tingui, tendo ao redor duas moçoilas encantadoras, munidas de cadernos, livros, muitos livros, de vários autores,todos os livros do Jamil Snege, apontando-me junto à boca o gravador miniatura. Não acredito nunca que estas micro-engenhocas possam funcionar e três vezes peço a uma delas, a mais gorduchinha, de nome Priscila, que teste a máquina. Ainda mais excitada, certa de que colaboro na preservação do que dentre instantes direi, baixo invariável genialidade e inalcançável lucidez, íntima, o gravador em off, me interpela o exotismo:
- Por que o senhor tem medo de que o gravador não grave?
Não quero ser indelicado, dizer que não terei paciência para gravar tudo de novo, mas me saio com esta, sem o menor desejo, acreditem, de causar impacto:
- É que eu não lembraria nada do que já disse e, como já disse, não consigo, jamais, dizer de novo. - E quase que completei : com o mesmo brilhantismo.
Não supunha o frouxo de riso que às duas acometeu, entreolhando-se , e rindo, rindo às velas pandas. Juro que viajei na miserável idéia de que riam de mim porque eu me parecia com a Gertrude Stein ou, ao menos, com uma velha gorda. Ajeitei, num gesto quase inconsciente, o gorro, levantei-o um pouco de sobre a orelha, mesmo temendo os ventos gelados desta época do ano. Penso que me mexi um pouco,a gasta poltrona rangeu como se fôra de molas, emitindo um ruído desusado, semelhante a, digamos, um pum metálico. Comecei a suar a palma das mãos sob a luva preta: desabaram, as visitantes, de novo num frouxo de riso que as fazia sentar e levantar-se, apertar, rindo, curvadas, o alto da barriga, rindo, rindo sempre e incontinente.
- O que houve de tão engraçado? - ousei, fingindo um ar blasé de escritor francês do pós-guerra.
- É que tudo o que senhor faz ou diz é muito, muito engraçado... - respondeu a mais magra, acho que Jéssica, o nome, não cessado de todo o riso destrambelhado.
- Curioso, acho minhas coisas até meio tristes, algumas deliberadamente terríveis... - ensaiei uma defesa honrosa. Em vão.
Olha: da capa, com o macaco, à última página, o seu livro é uma comédia... - falou, de novo, a gorduchinha.
- Macaco? Eu não sou autor de nenhum livro cuja capa tenha um macaco - guaguejo, de novo com a horrível sensação de que foram instruídas para me gozar a cara.
Aí que a mesma gorduchinha tira de dentro da mala escolar um luzidio exemplar de ‘‘Como eu se fiz por si mesmo’’, e fuzila, cheia de argumentos:
- O senhor é ou não é o autor deste livro?
- Não, não sou. Este livro é do Jamil Snege.
- Mas o senhor não é o escritor Jamil Snege?
- Não, não sou, meu nome é Wilson. Wilson Bueno.
- Nossa! - pôs a mão na cabeça a gorduchinha e as duas desandaram, de novo, a rir - sem peias e nem medida. Sufocavam-se de rir, grasnavam, quase uivavam.
Afundado no sofá, acho que ri, acho que ri um pouco.

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