Wilson Bueno
Mundos primeiros
Érebro, cérbero, Ulisses e Dante
Quem aí, movido pelo silêncio das madrugadas excessivas, não viajou, a exemplo do fino Sterne, ao redor do próprio quarto, desembaralhando, feito um novelo, a vasta e sempre intrigante mitologia greco-romana? Para além de imemorial registro da História, constitui, a mítica cosmogonia, como que um selo, signo vibrátil em vosso inconsciente profundo, a ‘‘marca solene’’, quem sabe?, do Deus que vige na entranha da Humanidade ao jeito de uma determinação de raiz.
Nascer milhares de anos após a invenção do teatro incalculável da mitologia, é receber milhões de vezes recontadas, estas mesmas lendas, quase sempre em fúria, num movimento regido mais pelo tumulto do que pelas ‘‘serenas águas’’ de que fala, em texto sublime, o poeta romano antigo, invocando o Érebro, primeira ‘‘estação do inferno’’, com sua paisagem tomada pelos palácios da Noite, do Sono e dos Sonhos. Morada de Cerbero, das Fúrias e da Morte. Aí que erravam os corpos dos mortos insepultos. Para Homero, todos os mortos invocados por Ulisses, na ‘‘Odisséia’’, não poderiam vir de outro lugar senão do terrível Érebro.
Ia além o poeta inaugural: procedentes de uma ou duas estações adiante, do Tártaro ou do Maus, por exemplo, os mortos de Ulisses não seriam a figuração ‘‘real’’ dos mortos posto que, no primeiro, os corpos se desfazem e no segundo nem corpo há mais, senão a dor da Fadiga e dos Ressentimentos, e no descenso de seu próprio círculo, a da Velhice, do Terror e da Fome. Possível imaginar a ‘‘gradação’’ infernal deste terceiro ‘‘momento’’ a caminho de um ‘‘desembarque’’ último nas ‘‘Sombras Eternais’’, como os simbolistas metaforizavam, em língua pátria, no plural e com igual ênfase, o Inferno.
‘‘Via a tortuosa estrada que leva a Aqueronte’’, para não esquecer o divino Dante, haveremos de encontrar as abundantes águas do rio Cocito cujo curso é formado, todo ele, pela lágrima dos malditos. Rolam rochas nele feito seixos.
O autor da ‘‘Comédia’’, sem discussões, foi o mais genial de todos quanto intentaram, cá no planeta, descrever do Inferno mais que seus rios de fogo e estertorosos gemidos, o que pela via da permanência transcende em nós a agrura dele e a de seus tórridos círculos. Desde sempre condenados ao ‘‘pecado original’’ da espécie: guardar, cá na esforçada passagem ‘‘per el camin de nostra vita’’, os átrios infernais, no coração como um estigma. Ou um copo de veneno.
Não precisa ir longe: do psicopata ensandecido do Rio Grande do Norte às guerras tribais da África insolúvel; dos recém-nascidos torrados nas incubadeiras dos hospitais públicos ao pau-de-arara - mais comum este do que sonha a nossa vã inocência, nas delegacia brasileiras - vivemos, para ficar em exemplos bem exíguos, enrolados ao vício dos sexos de Tânatos, o deus da Morte. Com um gosto e um êxtase que, claro, há mais de um século, Freud explica.
Nascidas do próprio anseio humano em decifrar, de si, a natureza do instinto medonho, a mito cosmogonia greco-romana é antídoto eficaz não só contra o tédio ou a melancolia, como parece recurso sensato, senão único, para entendermos, pela ficção, que é a única coisa que nos ultrapassa, a hominídea ‘‘realidade’’ babuína de cada dia.
Ah, os rios do Inferno são, pela ordem, o Estige, o Aqueronte, o Cocito e o Flegetonte. Entre o ‘‘mocho’’, ave lúgubre voejando insone as águas ferventes de Aqueronte às chamas sulfurosas do Flegetonte, este indo em sentido contrário ao de Cocito, de modo a tornar impossível a fuga das margens de um ou de outro, séculos da mais pura verdade humana vos contemplam.

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