Volto aos koans, com este quase sempre indispensável prefácio, em que tento definir o indefinível, desvendar a gramática do que não tem gramática nem nunca terá. Fruto da busca espiritual zen-budista, koans não passam de mini-pilhérias, microparábolas, historietas que perscrutando as vezes e os revezes da alma humana podem que cheguem à equações com as quais nunca sonhou a nossa vã filosofia.
Instrumento essencialmente pedagógico, ainda que, em sua entranha, vibre o fastio a toda e qualquer pedagogia, koans são instruções com vista ao alcance do nirvana, insight supremo, satoris enlouquecidos de des-razão e, por isso mesmo, muitas vezes, melhor fecundados pela razão e donos de um saber que se quer puro devir, rio-corrente, espelho da precariedade - heraclitiana - do tempo em nós andando. E, desse modo, afins com o real de forma direta e intransitiva, sem intermediações, sobretudo a cultural - de todas, a mais perversa.
Algumas vezes complexos feito um tratado kantiano e, outras, simples como um passarinho, koans serão capazes de fazer brotar de vosso peito, assim de surpresa, uma que espécie de Deus - sem nome nem religião, sem cisma nem catecismo.
Quem se habilita?
o diamante azul
O jovem monge procura por todo o Tibet uma estátua do Buda que, sendo oca, abriga dentro um diamante azul. Menos por seu valor comercial do que, claro, pelo que possa representar de inédita e absoluta descoberta mística, o jovem monge decide se dedicar a esta busca quase como um projeto de vida.
Guarda consigo a certeza de que encontrando o diamante azul no interior do Buda terá encontrado junto a resposta a todas as suas indagações, a serenidade no fundo do poço de toda angústia, um sol que seja na furiosa tormenta.
Muitos anos se passam até o dia em que o jovem monge, não mais tão jovem assim, topa com o velhíssimo Nguyo Ling, poeta viajeiro, mestre de haicai e zen, que, por sua vez, também procura o Buda oco com o diamante azul.
- Há quanto tempo o jovem procura pela ‘‘resposta’’?
- Há uns vinte anos, se não erro o tempo das nevascas quando não sabemos se dia ou noite e nos enganamos na contagem das horas.
- Pois eu procuro o Buda oco com o diamante azul há mais de meio século evitando sempre as montanhas geladas de nosso país pois poderia perder nelas a contagem das horas...
- E o que tem isso com encontrar ou não encontrar o Buda?
- Tem que o Buda oco com o diamante azul só se revelará a quem o busca, de modo surpreso e repentino.
- Então, melhor ainda esquecer as horas...
- Não, meu jovem, não: quem esquece as horas, e não sabe se dia ou noite, nunca será surpreendido.
- Não entendo. Não é justamente o contrário?
- A surpresa é irmã siamesa da rotina. Sem a viagem comum dos dias, nunca jamais o de repente, o súbito e o inaudito. Só quem se dedica a contar está sempre encontrando.
- E então por que o mestre não encontrou, até agora, o Buda oco com o diamante azul?
- Ora, ora, meu jovem... Então você não sabe que o Buda oco com o diamante azul nunca existiu?
as estrelas do céu
- Mestre, para que servem as estrelas?
- Para brilhar acima de nossas cabeças.
- E não servem para mais nada?
- Se servissem para outra coisa não seriam estrelas.
os muros da cidade
Correu a notícia de que havia em Chainppur um monge milagreiro, capaz das mais incríveis e extraodinárias proezas: ressuscitava homens e animais mortos, transformava vastos capinzais em arrozais contínuos e, diziam, era até mesmo capaz de andar sobre os temidos muros da cidade - sem se cortar nos cacos de vidro e, suprema façanha, sem ser atingido pelo fogo dos soldados que guardavam, em toda a extensão, a grande muralha.
À entrada da cidade, dois monges andarilhos comentam a boa-nova:
- Para quem transforma capim em arroz tanto quanto encarna e desencarna homens e animais não me parece tarefa assim tão extraordinária andar sobre os muros da cidade...
- E por que o povo de Chaippur parece colocar este milagre como o mais nobre?
Ouvindo a conversa, um monge, cego e mendigo, que, à entrada da cidade, estendia aos passantes o shocô, tateando o ar, aproxima-se dos forasteiros e fala desde os seus olhos opacos:
- Vocês estão vendo estas muralhas?
- Não - respondem quase em uníssono os dois monges - procurando com gestos e olhares a que muralha ele se refere já que não há nenhuma.
- O milagre é o mais extraordinário de todos porque é justamente sobre ela que o monge Toshi anda sem se cortar e nem levar, dos guardas, um só tiro.

mockup